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Home Sociedade

Amor em tempos de quarentena

Em isolamento, mas sem pijama e com muita conversa e paciência.

Maria Anabela Silva Maria Anabela Silva
27 de Março de 2020
em Sociedade
Amor em tempos de quarentena
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Quantos não são os casais que se queixam da falta de tempo para estarem um com o outro? O tempo que agora sobra, mas que também se pode revelar um obstáculo na relação conjugal. Ficar fechado em casa com o parceiro, durante dias e dias, muitas vezes com filhos pequenos, é um cenário que pode ir do paraíso ao inferno.

Das pequenas irritações diárias, por coisas banais, às discussões ou, em situação limite, à violência, podem ir poucos passos, sobretudo se a relação já tinha problemas antes da pandemia. Da China, onde começou o surto de Covid-19, têm vindo notícias do aumento, quer dos pedidos de divórcio no pós-quarentena quer dos casos por violência doméstica durante a fase de isolamento.

Se o mesmo pode acontecer ou não em Portugal, ainda é uma incógnita. Especialistas ouvidos pelo JORNAL DE LEIRIA admitem que essa é uma possibilidade, mas garantem que não é uma inevitabilidade. E apontam alguns caminhos ao casal para que a relação sobreviva em tempo de guerra, que é como quem diz, durante a quarentena.

Aliás, pode até sair reforçada. Muito diálogo e doses redobradas de paciência são elementos essenciais para enfrentar as dificuldades da quarentena. Já agora, deixar o pijama de lado, também dará uma ajuda.

“As relações que já passavam por fragilidades, com poucos objectivos comuns e com pouca capacidade de estar atento ao outro, agora confinadas a quatro paredes poderão ter problemas. Tudo se pode exacerbar”
Vânia Beliz, sexóloga

Para Alexandra Alvarez, terapeuta familiar e de casais, “as circunstâncias actuais podem ser uma ameaça para a relação, mas também uma oportunidade. Segundo a especialista, “o isolamento pode ajudar o casal, na maioria dos casos sempre tão atarefado, a reaproximar-se e a reencontrar pontos de comunicação”. Contudo, se a relação “já não fluía”, o período de quarentena pode revelar-se “muito stressante e agressivo” para a relação, quer pelo desgaste associado ao isolamento quer pela ameaça e incerteza em relação ao futuro.

“As relações que já passavam por fragilidades, com poucos objectivos comuns e com pouca capacidade de estar atento ao outro, agora confinadas a quatro paredes poderão ter problemas. Tudo se pode exacerbar”, acrescenta Vânia Beliz. A sexóloga frisa que “os casais não estão habituados a estar tanto tempo juntos” em casa e com os filhos. “Isto traz outras dinâmicas e outras aprendizagens, que devem ser partilhar das em família “, defende.

A sexóloga acredita, contudo, que este pode ser um momento para “melhorar a comunicação” entre o casal e, consequentemente, a relação e que, no pós-crise, esta pode até sair reforçada. Para tal, é fundamental “a partilha de emoções, de medos e de ansiedade”, uma recomendação que, frisa, é válida para ambos os sexos. “Normalmente, o homem tem mais dificuldade em expressar-se. É importante que fale. O medo e o pânico não são uma coisa só de mulheres”, alega Vânia Beliz.

Também Alexandra Alvarez considera que a “grande chave” para o casal enfrentar as dificuldades inerentes à quarentena está no diálogo e na exposição de sentimentos, se possível, “sem a lamuria e o queixume habitual”. Associado ao diálogo, Celina Almeida, psicoterapeuta especializada em terapia de casal, junta uma outra recomendação: “evitar ficar numa bolha, agarrado aos contactos virtuais”.

“Ninguém vai morrer, se não tiver sexo”

Para Celina Almeida, é ainda importante que o casal perceba e interiorize que este é um período “atípico”, em que a vida está em “stad-by” e que é “normal” que a relação “fique em segundo plano, porque a família se sobrepõe”. “Não tenho de ficar preocupado porque a relação fica mais desgastada, porque há mais implicações e porque se dá importância a pormenores que, noutras circunstâncias, seriam ignorados. É fruto da situação atípica que se vive”, nota a psicoterapeuta.

O mesmo se passa com a sexualidade, com Vânia Beliz a sublinhar que é “normal” que, no contexto actual, haja uma quebra de desejo. “O stress e a ansiedade são dois grandes inimigos da resposta sexual. A pessoa não deve pressionar-se ou começar a pensar que esta parte da sua vida acabou. Ninguém vai morrer se não tiver sexo dois ou três meses. Nesta fase, há coisas mais importantes do que a relação sexual”, afirma a sexóloga.

Apesar de o foco ser a família, há algumas estratégias que podem ajudar a relação conjugal nesta fase. Vânia Beliz aconselha o casal a tentar encontrar espaço para si, procurando deitar os filhos “não muito tarde” e ajudando-os a lidar com o “medo”, para evitar que vão para o quarto dos pais. Se a criação deste espaço para os dois for possível, “por que não recorrer a literatura ou filmes eróticos”, tomar um banho juntos ou até “encomendar brinquedos sexuais através das farmácias on-line”, sugere.

Por seu lado, Celina Almeida aconselha os casais a serem “bondosos e cuidadosos um com o outro”, proporcionando ao parceiro “momentos de escape individual”, assumindo, por exemplo, por um determinado período, o cuidado aos filhos. A psicoterapeuta considera ainda importante que não se criem expectativas difíceis de realizar. “Programas a dois nesta fase serão para esquecer. Jantar com amigos também não vão acontecer. Depois, teremos tempo.”

“Que cada um de nós consiga aproveitar o bom que vem do mal”
Alexandra Alvarez, terapeuta familiar e de casais

Na dinâmica do dia-a-dia, é “fundamental” manter e definir rotinas. “Se a pessoa está em teletrabalho, deve vestir-se como se fosse para o emprego. O pijama não é um bom amigo nas actuais circunstâncias”, adverte Vânia Beliz, sublinhando a importância de “promover o auto-cuidado”, ao nível da alimentação e, se possível, manter alguma actividade física.

Celina Almeida recomenda também que se defina quem faz o quê, em termos de tarefas doméstica, para “reduzir focos de conflito”, porque “agora não há a possibilidade de cada um ir à sua vida e, por essa via, a tensão acalmar”.

Esta é também a oportunidade para “fazer coisas diferentes” e aquelas para as quais normalmente não temos tempo. “Que cada um de nós consiga aproveitar o bom que vem do mal”, resume Alexandra Alvarez.

Violência doméstica

Isolamento deixa vítimas mais expostas

A quarentena pode deixar as vítimas mais expostas. Na China, onde começou o surto, as organizações não governamentais dão conta de um aumento de casos, que, em algumas zonas, chegaram a triplicar. A antecipar uma possível subida de casos, o Governo garantiu mais 100 camas para acolher vítimas de violência, criou um email específico para receber novas queixas com a palavra “Covid-19” e tem piquetes de urgência em todos os distritos, além do atendimento normal. “Sabemos que [o isolamento] vai ser um problema muito difícil para todas as famílias e de forma acrescida para quem era já era vítima de violência doméstica”, diz Rosa Monteiro, secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade, citada pelo jornal Público, adiantando que, para já, não há registo de queixas “fora do normal”. Mas, é expectável que haja aumento. “Estar em casa com o agressor, em situações de tensão, é um elemento perigoso para as vítimas, que vão está mais expostas ao risco. Muitas pessoas vão passar mal”, adverte Alexandra Alvarez, terapeuta familiar e de casais.

 

Tópicos: amor em tempos de quarentenacasais em quarentenacovid-19
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