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O Natal dos meus avós. Ou o que resta da tradição

Em duas ou três gerações, a quadra natalícia ganhou contornos muito diferentes. Em muitos lares da região, a Missa do Galo, o sapatinho e o Menino Jesus deram lugar ao Pai Natal, aos anúncios televisivos de bonecada e até a uma saída nocturna para a disco

Daniela Franco Sousa Daniela Franco Sousa
20 de Dezembro de 2018
em Sociedade
O Natal dos meus avós. Ou o que resta da tradição
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Não é preciso recuar muitos anos para perceber o quanto a quadra natalícia tem vindo a adquirir diferentes contornos. Os mais velhos falam do tempo em que as festividades eram religiosas, de celebração em família, unida à ceia, à volta da mesa. Já as crianças de hoje adoram o amistoso barrigudo de fato vermelho. E os adolescentes aproveitam a véspera de feriado para uma ida à discoteca. Ainda há Natal? Muitos acreditam que sim. Sentem-no cada um à sua maneira.

Uma celebração humilde

As primeiras memórias de Natal de José Calado, de 77 anos, são de uma celebração muito humilde. Natural do lugar da Garcia, na Marinha Grande, o septuagenário conta que nasceu no seio de uma família com parcos recursos. A mãe trabalhava no campo. O pai também trabalhava no campo e negociava madeiras.

O magro orçamento familiar, nem sempre constante, era manifestamente curto para um agregado de cinco filhos.

E a quadra natalícia acabava por espelhar essas dificuldades, que eram também as dificuldades partilhadas por grande parte das famílias da aldeia.

José Calado conta que vivia com os pais e com os seus irmãos em casa da avó. Aquele “doce de pessoa”, “uma santa”, recorda o septuagenário, era quem mais esforço empregava para assinalar a quadra. Acendia-se a lareira para aquecer a casa e à volta da mesa sentavam-se todos a jantar. Como habitualmente havia pouco para comer, qualquer refeição que fosse preparada e que fugisse um pouco à rotina era um contentamento muito especial, explica José Calado que, daqueles tempos de meninice, nem sequer se recorda de haver cardápio diferenciado.

Religiosa, a sua família não faltava à Missa do Galo, que era sempre um momento de alegria, com a capela cheia de gente. E o instante mais aguardado do ano só acontecia dia 25. Na véspera, José e os irmãos deixavam os sapatinhos junto da lareira, para que no dia seguinte o Menino Jesus lhes deixasse um agrado.

Sapatinho não será bem o termo, ressalva José Calado, lembrando que só teve o seu primeiro par de sapatos aos 11 anos. Até lá, era uma peúga velha ou um tamanco qualquer que faziam as vezes do “sapatinho à lareira”. E era a sua avó quem comprava um pequeníssimo chocolate, em forma de ratinho, que deixava junto à cinza para cada um dos netos. “Nessa madrugada nem dormíamos”, conta José.

No dia 25, as crianças procuravam todas contentes por esse chocolate mínimo. “E até o guardávamos. Exactamente da mesma forma que guardávamos e fazíamos durar uma peça de fruta quando a havia”, relata o septuagenário.

Durante a II Grande Guerra e mesmo nos anos que se seguiram, tudo era racionado, relembra José Calado. Portanto, embora uma ou outra família já pudesse proporcionar uma ceia diferente, os seus pais incluíam- -se entre aqueles que pouco podiam oferecer.

Arroz doce sem ovos e sem leite

Já tinham passado vários anos depois do seu casamento com Zulmira Fazendeiro, quando o Natal de José Calado ganhou um brilho diferente. Depois de cumprir serviço militar durante quatro anos, em Timor, José e Zulmira casaram. Foi em 1969.

E os primeiros tempos de vida a dois também não lhes proporcionaram os Natais mais felizes. Por motivo de doença José teve de deixar o emprego como lapidário e procurar outra ocupação. Estava desempregado e tinha uma casa para construir. E ainda passou pelo sector dos moldes até que finalmente conseguiu estabilizar a sua vida profissional na indústria de vidro.

A esposa de José recorda que até há oito anos, data em que faleceu a mãe de Zulmira, todas as ceias de Natal eram passadas com a idosa. Era na casa dela, na localidade do Pilado, também na Marinha Grande, que se reuniam Zulmira e o marido, bem como os seus irmãos, aos quais passaram mais tarde a juntar-se as duas filhas e os sobrinhos de Zulmira.

Por ter nascido num período de grande pobreza em que os bens escasseavam para a maioria da população, a mãe de Zulmira estava habituada a finalizar a ceia de Natal com um arroz doce que nem ovos e leite tinha. Foi com o nascimento das filhas de Zulmira e de José, Sónia e Lúcia Calado, que a ementa em casa da idosa começou a enriquecer.

O bacalhau, que até aí era cozido com batata, começou a rivalizar com o bacalhau com natas, que era mais do agrado das crianças. Começaram a ter lugar as filhoses e até o arroz doce passou a ser confeccionado com ovos e leite. Mas a elaboração dos vários pratos cabia às mulheres da família. Era uma questão de brio. E nem sequer havia a alternativa de comprar comida feita fora de casa como hoje acontece, frisa Zulmira.

Embora se mantivesse o desejo de rezar, afinal esta data tinha para os mais velhos um grande significado religioso, a família deixou de frequentar a Missa do Galo. Ao contrário da Garcia, a Igreja do Pilado só foi construída na década de 80 e a celebração ficava agora mais longe, o que desmotivou o agregado.

Embora já existisse alguma oferta disponível, nem Sónia nem Lúcia (filhas de Zulmira e de José Calado) faziam grandes exigências quanto aos brinquedos que pretendiam receber no Natal. Zulmira conta que se oferecia uma ou outra boneca, que nem sequer era das mais caras. Mas já nessa altura se verificava a importância crescente do Pai Natal, que era aguardado com alguma impaciência. Os presentes começavam a ser desembrulhados depois da ceia.

Do Nenuco à carta infindável ao Pai Natal

O momento de viragem no Natal de José e Zulmira, em que mais do que a celebração religiosa passou a cultivar-se “consumismo”, foi, na opinião do casal, a chegada da primeira neta, Cheila. “Cheila e as primas já queriam tudo” e o Natal passou a ser de “prendas e exigências”, com bonecos Nenucos que talvez tenham tido mais roupas do que tiveram os próprios José e Zulmira nos seus tempos de meninice. E a chegada da bisneta, Lara, agora com quatro anos, veio vincar ainda mais a ideia de um Natal que é feito sobretudo de embrulhos para abrir.

Atenta à conversa dos avós, Lara interrompe os mais velhos para contar que já tem a carta pronta para enviar ao Pai Natal. Enumera vários jogos e fantasias que vê anunciadas no Canal Panda e pede, à cabeça, “a Casa da Vampirina”.

“Só escolhe as coisas mais caras”, relata a mãe, Cheila, para quem o Natal também passa por se esforçar por comprar tudo o que a filha lhe pede. Para a própria Cheila, Natal é isso mesmo: mais família do que religião, mais Pai Natal do que Menino Jesus, e um grande jantar onde se abre espaço para falar dos presentes comprados e recebidos, sejam malas, bijuteria, perfumes ou um telemóvel novo.

O bacalhau cozido com batatas e couve tornou-se agora o menos popular da ceia. Em casa da tia Sónia Calado come-se, sobretudo, bacalhau com natas e também a carne passou a fazer parte do cardápio. Encomendam-se doces variados, os tradicionais e as novidades, desde o bolo rei ao bolo rainha, passando pelas mousses e pelos pudins. Há comida a mais. Dá sempre para o dia seguinte e até para congelar, admite Zulmira.

Os mais novos usam e abusam dos smartphones e vão partilhando fotos da Consoada com os amigos, pelo Facebook, relata Cheila. Muitos jovens, terminada a festa em família, vão para a discoteca, aproveitando a véspera de feriado, salienta a rapariga.

Mas esse nunca foi o hábito de Cheila nem das primas, conta a jovem, que no dia 25 continua estoicamente a comer as sobras da véspera, entre conversas de família, anedotas do avô José e embrulhos de Natal.

Quando a minha quadra natalícia tinha circo, aletria e formigos

Alzira Santos reside na Marinha Grande, mas foi no Porto que nasceu há 69 anos. E por mais anos que passem, a sexagenária não esquece o gosto do Natal na sua cidade.

Alzira morava na Foz do Douro e tinha a casa dos pais sempre cheia durante esta quadra festiva. À volta da mesa unia-se a família alargada: pais, filhos, tios e primos. E até quando um dos filhos mais velhos casou continuou a juntar-se ao clã, já com a sua esposa e os seus miúdos também.

Por isso, eram sempre dias de muitas crianças e de grande agitação naquele lar.

A ceia tradicional era composta por bacalhau cozido com couves e por doçaria diversa, desde as rabanadas, passando pela aletria, até aos formigos, que são uma iguaria à base de pão, avelãs, passas e canela, muito apreciada em várias regiões do Norte.

Muito apegada à religião, depois da ceia a família de Alzira não faltava à Missa do Galo. “Pelo caminho até à igreja íamos na brincadeira”, relata a sexagenária.

Os pais de Alzira Santos viviam uma vida desafogada. O vencimento do pai, que era funcionário da Alfândega do Porto, era suficiente para que toda a família vivesse bem. Nos primeiros anos de vida em comum, recorda Alzira, os seus pais também arrendavam parte da sua habitação, de forma a fazerem aumentar o orçamento familiar. A mãe era doméstica. Cuidava da casa e das crianças.

Havia por isso condições para que Alzira e os irmãos pudessem receber alguns presentes no Natal. “Tínhamos presentes. Mas eram poucos. Deixávamos os sapatinhos junto à lareira e no dia seguinte o Menino Jesus deixava- nos um chapéu-de-chuva ou um lenço para a cabeça”, recorda a sexagenária. “Até íamos logo à missa das sete da manhã só para podermos mostrar os lenços novos”, lembra Alzira.

No dia 25 de Dezembro, a família tornava a juntar-se à volta da mesa. E era dia de estrear fatos novos. “Por esses dias, minha mãe pagava a uma modista que ia até nossa casa para nos fazer roupa por medida. Aproveitava- se o Natal para ter vestidos novos”, explica Alzira Santos.

O Natal também não era o mesmo sem ver os palhaços. Alzira lembra-se de sair com a mãe e com os irmãos para ver circo. O pai não apreciava aquele tipo de espectáculo e costumava ficar em casa. Mas, a certa altura, cansado de ficar sozinho, resolveu comprar uma televisão para que a família pudesse ver os palhaços mais perto dele, conta a sexagenária.

Entre os tempos de meninice no Porto e os Natais de hoje, na Marinha Grande, Alzira ganhou alguns cabelos brancos… e cinco netos, também. “Os Natais dos meus netos são muito diferentes. Eles têm de tudo. Não lhes falta nada. Embora os meus Natais também não fossem maus”, defende a sexagenária. Apesar das diferenças, o espírito natalício, o desejo de estar em família, esse continua a ser o mesmo e é transversal às várias gerações, defende a idosa.

A ceia de dia 24 de Dezembro passou entretanto a realizar-se em casa do seu filho ou da sua filha, com os netos todos por perto. A juventude de hoje, e até os adultos, já não têm paciência para aguardar pelo Menino Jesus a trazer presentes no dia seguinte.

 [LER_MAIS] Por isso, as prendas são trocadas e desembrulhadas logo na véspera de Natal, conta Alzira Santos. Outra das mudanças é que os pratos servidos na Consoada são agora em mais quantidade e de géneros muitos diferentes daqueles sabores que Alzira conhecera durante a mocidade no Porto.

Na Marinha Grande, comer aletria não é um costume tão implementado como no Norte. Prefere- se o arroz doce, as mousses. E até o leitão foi introduzido no cardápio natalício, relata a sexagenária. E como já ninguém vai à Missa do Galo, à meia-noite de 24 de Dezembro, Alzira faz questão de alimentar a sua fé e vai a outras celebrações ao domingo, remata a idosa.

Tópicos: Marinha Grandenataltradição
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