Faz agora dois anos. Deu à costa sem aviso, provavelmente em noite escura de nevoeiro, para erguer o farol que ilumina os marujos da contracultura em Leiria. Chamam-lhe Capitão e é dele o espírito pirata que actualmente abençoa boa parte do movimento underground na cidade. Em dois anos sete tormentas, sete embarcações a lançar âncora no Texas Bar – e a auto-proclamar um novo território de liberdade rock n roll onde a música se mistura com as artes plásticas e as artes visuais no mais genuíno traço do it yourself. Independente, rebelde, sem limites, caveira cachimbo e barbas paranormais, garrafa de rum e voz de tempestade, a cantar poesia tatuada a piercings, o Capitão já convocou bandas como The Parkinsons, The Zanibar Aliens, Killimanjaro, The Cavemen, Stone Dead, Serushiô, Dapunksportif, The Quartet of Woah, Brenna, Cows Caos, Fast Eddie Nelson e Rapaz Improvisado, de outro Portugal e do estrangeiro, além dos muito cá da terra Twin Transistors, mARCIANO, Horse Head Cutters, Rodrigo Cavalheiro, André Castela, António Cova, A Last Day On Earth e Country Playground. Para João Rino, um dos argumentistas do circo de almas que dá vida ao Capitão, com Frederico Clemente, João Lopez e João Lisboa (Johnny Lee), há a destacar "a capacidade que ao longo destes dois anos o projecto teve de apresentar artistas que depois se vieram a revelar, quer no panorama regional quer no panorama nacional, como referência". Por exemplo, Stone Dead e Killimanjaro, que agora estão com a Antena 3 num cartaz dedicado aos 40 anos do punk. Mas também Serushiô, que vão ao próximo Eurosonic, na Holanda. À volta dos amplificadores e dos feedbacks, o Capitão tem conjurado um mercado negro por onde já passou o talento de Lisa Teles, Carolina Sepúlveda, Elsa Poderosa, Sal Nunkachov e Frio, entre outros nomes locais da ilustração, da fotografia e das fanzines. Ou seja, um retrato orgânico do que emerge em Leiria no mar agitado da criatividade urbana. "Tentamos sempre junto dos artistas desafiá-los. E acho que temos conseguido com sucesso", afirma João Rino, que dá o caso dos Obaa Sima, isto é, Luís Jerónimo e Hugo Domingues, dos Nice Weather For Ducks, que se reuniram ao vivo numa exploração electrónica de máquinas e sintetizadores, pela primeira vez, no jantar do Capitão do Festival A Porta, no último dia do passado mês de Maio.
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O início. Mas afinal quem é o Capitão? De onde veio? Para onde vai? Tudo começou com Frederico Clemente e João Lopez, o primeiro alguém habituado a programar concertos no Texas Bar, o segundo o cérebro responsável pelo tecido letra a letra que veste a comunicação do Capitão nas redes sociais, um imaginário armado até aos dentes de marinheiros barbudos e galeões a ranger, velas ao vento e bandeiras destemidas, bandidos à deriva e portos de abrigo com bordéis e descobrimentos. O projecto nasce "com a vontade de fazer alguma coisa diferente", porque "a sala" do Texas Bar "tinha potencial para dar mais", não apenas música, mas também "outro tipo de cultura", explica Frederico Clemente. Fora das regras e a fugir da normalidade. "Sinto que quando a gente faz um evento as pessoas já vão com outro espírito, que encarnam a cena de ser um pirata. Embora curtir, embora navegar".
Por princípio, enquanto promotor, o Capitão procura criar um "universo trash e ao mesmo tempo meio home made", que se quer manter à margem das políticas culturais e da lógica dos apoios ao associativismo. "Existe um fio condutor que é o psicadelismo e os anos 70, embora tentando ligar a essa cultura do it yourself, do imaginário contra a lei", descreve João Rino. "Ou seja, quando te predispões a embarcar numa cena nossa, já tens que ir com o espírito vou-me rebentar todo, tudo é possível".
O futuro. João Lisboa acredita que a estratégia de comunicação faz a diferença – tem raízes no logo desenhado por Tati Alecrim, vive nos flyers de cada embarcação e odisseia (os eventos fora do Texas Bar), grita em cada texto no Facebook e fecha o ciclo nas campanhas de rua baseadas em cartazes tamanho família, com o apoio do merchandising em formato t-shirt. Outra coisa que faz a diferença é a preparação de cada evento, em que a equipa procura contagiar as bandas com a filosofia Capitão, numa espécie de homenagem aos músicos que proporciona proximidade e fraternidade. O expoente máximo, Rodrigo Cavalheiro, que tem a letra de uma canção imortalizada numa rua do centro histórico e se prepara para retribuir a gentileza no próximo álbum.
Concertos, tatuagem ao vivo, mercados de vinil e roupa vintage, exposições de fotografia, ilustração e colagens, dj sets, performance, joalharia, mentalismo, design de moda, pintura, artes plásticas, artesanato, tudo isto, e mais, é o Capitão. Um pirata bom, no fundo, responsável pelo baú solidário que canaliza donativos para a associação Novo Olhar, na Marinha Grande.
Em 2018, os marujos da contracultura vão continuar na rota da descoberta e da experiência. Para já, há uma oitava embarcação prometida para Março no Texas Bar. Mas também existe a vontade de explorar novos rumos, mais longínquos. "Talvez fazer uma embarcação fora daqui. Estamos a tentar crescer sustentadamente", antecipa João Lisboa. Está escrito nas estrelas: a cartografia do Capitão é um mapa sem fim à vista, assim o sal dos oceanos nunca se acabe.










