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Emoção e lágrimas de ex-presos políticos contra concessão da Fortaleza de Peniche a privados

Ex-presos políticos e respectivos familiares mostraram-se indignados com a intenção do Governo em concessionar privados a Fortaleza de Peniche

Redacção Redacção
31 de Outubro de 2016
em Sociedade
Emoção e lágrimas de ex-presos políticos contra concessão da Fortaleza de Peniche a privados
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Quatro centenas de pessoas, sobretudo ex-presos políticos e respectivos familiares, manifestaram-se no sábado, em Peniche, com lágrimas e emoção, contra a concessão da Fortaleza a privados.

No recinto ao ar livre do forte, aprovaram, com salvas de palmas, emoção e lágrimas nos olhos de alguns, um documento intitulado "Apelo ao Governo em defesa da Fortaleza de Peniche símbolo da repressão e da luta contra o fascismo".

No documento, mostraram-se indignados com a intenção do Governo em concessionar privados a Fortaleza de Peniche, considerado "um dos mais fortes símbolos da repressão fascista", e defenderam a instalação de um "verdadeiro Museu da Resistência".

No encontro convívio dos ex-presos políticos, esteve Domingos Abrantes, dirigente histórico do PCP, preso em Peniche em 1960 e entre 1965 e 1973, sendo o preso vivo com maior número de anos em detenção no forte.

"O projeto de privatizar a Fortaleza de Peniche deve ser considerado um atentado contra a própria democracia e a violação do dever de qualquer Governo democrático de honrar a memória de todos aqueles que deram a própria vida para que o povo português pudesse ter liberdade", declarou Domingos Abrantes.

Para aquele ex-preso político, tornar o Forte de Peniche numa unidade hoteleira onde os turistas vão ter vista para o Atlântico "é um insulto à memória" daqueles que aí estiveram detidos e que nem o mar conseguiam ver.

António Rogério Reizinho, detido entre 1967 e 1971 em Peniche, partilhou da opinião.

Subscrevendo a posição, Eulália Miranda, filha do ex-preso político Dinis Miranda, relembrou que, aos quatro anos, percorria com a família "muitos quilómetros com grandes dificuldades financeiras para visitar durante uma hora duas ou três vezes vezes por ano o seu pai, após "horas de espera" à porta.

Machados dos Santos, um dos militares que no 25 de Abril de 1974 tomaram o Forte para libertar os detidos, também contestou a decisão, após recordar as dificuldades da libertação dos presos, devido à resistência ainda existente após a revolução, sendo que o primeiro saiu só à meia-noite do dia 27.

No documento recordaram que pelo Forte de Peniche passaram 2.500 presos e "histórias de vidas privadas da liberdade e sujeitas a um regime prisional odioso que não poupava os familiares dos presos".

Os manifestantes defenderam que "o respeito pela memória de milhares de portugueses exige a preservação do Forte como símbolo da resistência e da luta contra o fascismo" e que o Estado deve adoptar medidas para vir aí a instalar um "verdadeiro Museu da Resistência".

O Governo anunciou em Outubro a ideia de estimular a iniciativa privada para reabilitar e transformar em "activos económicos" cerca de 30 edifícios históricos, entre os quais o Forte de Peniche.

O encontro de ex-presos políticos integrou intervenções, declamação de poesia e visita ao monumento, que recebe por ano 40 mil visitantes.

O actual museu foi criado no início da década de 80 do século XX por locais e pela câmara de Peniche.

Um dos três pavilhões do forte passou a estar aberto ao público como museu municipal, onde foi reconstituído o ambiente como prisão política e se pode visitar parlatórios e celas individuais, como a que ocupou o ex-líder do PCP Álvaro Cunhal.

Agência Lusa/Jornal de Leiria

Tópicos: contestaçãofortalezadepenichePCP
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