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Home Desporto

Desculpem, o meu pai não sabe o que faz

Agressões entre familiares de atletas, insultos a árbitros, desrespeito pelas decisões dos treinadores, críticas aos colegas de equipas do filho. Fomos ouvir algumas histórias de pais mal comportados em quatro modalidades distintas.

Miguel Sampaio Miguel Sampaio
14 de Abril de 2016
em Desporto
Desculpem, o meu pai não sabe o que faz
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Com 20 anos, Benny é dos jogadores mais novos do plantel sénior de futebol da União de Leiria. Fez todo o percurso de formação no clube e tinha nove anos quando, em pleno jogo, teve uma surpreendente, recorda a mãe, Susana Silvano.

“Era muito motivadora, com uma voz que se ouvia muito bem. 'Anda Leiria! Anda Benny! Gritava por todos e era um alarido desgraçado. Mas há um jogo em que lá estava a puxar e o Benny pára o jogo, vira-se para trás e diz: 'ou te calas ou não jogo mais'.”

Estupefacção. “Se tivesse um buraco enfiava-me. Não estava a fazer nada de mal, mas veja de que maneira é que o que estamos a fazer fora das quatro linhas pode interferir na cabeça de um cachopo, que estava era preocupado em ouvir as indicações do treinador.”

Aquele episódio fez com que percebesse melhor o que se passa na cabeça dos miúdos. “Pedi-lhe desculpa. Ele percebeu, mas disse que só queria ouvir o treinador. E, nestas idades, a voz dos pais sobressai sempre, é detectável em todo o lado. Foi uma grande lição.”

Hoje, Susana Silvano é coordenadora geral do clube. “Conto muitas vezes esta situação aos pais mais empolgados. Se se distanciarem um bocadinho vão perceber que os filhos ficam livres, a tensão desaparece e poderão evoluir mais.”

No futebol, os sonhos pululam nas cabeças da criançada, ou não fosse a modalidade em que Portugal tem o melhor do Mundo, ainda por cima alguém que veio de baixo, contrariou as estatísticas e se tornou num ícone à escala global.

Cristiano Ronaldo representa tudo o que muitos portugueses sonham para a ninhada. Nada tinha e hoje tem tudo.

Por se saber das expectativas elevadas, na União de Leiria faz-se de tudo para que a situação seja minimizada. E está! Até lonas com mensagens de fair play foram colocadas na Academia de Santa Eufémia, num trabalho “preventivo”.

“Tudo se consegue”, com “imposição de regras, regulamento interno rigoroso e muito descritivo”.

A situação mais constrangedora que Susana Silvano assistiu foi protagonizada por um pai que saltou da bancada e, desorientado, se virou para o filho e disse 'não vales nada, não aprendes nada daquilo que te digo'.

“Vemos miúdos que definham e imediatamente ficam a tremer. Miúdos que começam a olhar para um lado e para o outro porque não sabem se hão-de obedecer ao treinador ou ao pai.”

E depois há pais que cronometram o tempo de jogo do menino e comparam com o do vizinho, há outros que não gostam da posição em que alinham, sobretudo se for na defesa.

“Temos de recordar e dizer que investimos nos treinadores, que são formados, há uma linha condutora que tem de ser respeitada. Felizmente, tudo tem corrido bem”

Pressão até ao suborno

João Marques sente-se um privilegiado. Sabe que em todas as equipas “há pelo menos um caso problemático”, mas também sabe que os seus 31 anos como treinador de andebol lhe dão a tarimba necessária para saber lidar com os problemas.

Não sendo uma modalidade em que se possa projectar com facilidade um futuro milionário para os jovens aprendizes, tudo começa, ainda assim, pela criação de falsas expectativas dos progenitores.

“Há familiares que querem que seja tudo muito rápido e depois, em casa, falam muito sobre um assunto que, na maioria dos casos, nem sequer dominam.” Ainda para mais, sem respeitarem uma série de etapas e de pessoas: os treinadores, os adversários, os colegas, os pais dos colegas e os árbitros.

Lembra-se de ver jogos do escalões de sub-10 em que os pais de atletas de dois clubes entraram em confronto físico e de uma final nacional do mesmo escalão que não chegou ao fim porque da bancada exigiram que os filhos abandonassem o campo pelo facto de os meninos estarem a ser provocados pelos pais dos jogadores adversários.

Também já assistiu, no final de uma partida de infantis, a trocas de insultos de pais nas bancadas e, depois, já com o jogo finalizado, os mais velhos não terem permitido que as crianças das duas equipas dessem os gritos em conjunto, como é habitual na modalidade.

Situações que, acredita, se resolveriam não havendo resultado desportivo neste escalão, muito menos a atribuição de um título nacional.

Tudo pode servir de rastilho. Há pais que não conseguem deixar de encontrar inimigos num jogo de andebol, inclusivamente uma “enorme embirração” com os colegas dos filhos.

“O objectivo? Acontece principalmente com os miúdos mais talentosos e não é mais do que uma estratégia para diminuir o outro e, assim, o filho poder destacar-se mais”, sublinha.

Segundo João Marques, que nos últimos anos esteve ligado ao AC Sismaria, ao Benfica e ao SIR 1.º de Maio, as situações podem chegar a extremos impensáveis.

“Enquanto dirigente, tive um pai que me tentou subornar para mandar um treinador embora e, assim, o filho poder jogar mais.”

Depois, há aqueles que estão na bancada a insultar todos os agentes, seja o filho porque falha, os colegas porque não passam a bola, os treinadores porque não põem o menino a jogar, os adversários porque não saem da frente e os árbitros porque prejudicam o filho.

Os clubes devem, então, tomar uma posição, mesmo quando se trata de um talento em potência. “Rebenta com todos e mais vale ir-se embora. Independentemente do potencial do miúdo, um clube não se pode rever nessas situações.”

Mas se há familiares que apontam o dedo aos de fora, também há aqueles que crucificam sobretudo o petiz que têm em casa. O técnico recorda-se de um miúdo que “era metralhado constantemente por causa do desempenho”.

“Cheguei a dizer a um pai que para um filho ter melhor rendimento desportivo era melhor não ir ver os jogos. Não reagiu bem, claro, mas deixou de ir e o miúdo melhorou. O que me interessa ter um pai na bancada a dizer remata para baixo, remata para cima?”

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Tópicos: comportamentodesportohooliganspais
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