Num relatório publicado na semana passada pela Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP), afirma-se que Portugal já dispõe de um ecossistema de Investigação e Desenvolvimento (I&D) para a defesa robusto, mas, alerta que, para o converter em mecanismo de “prosperidade territorial e soberania”, faltam incentivos pragmáticos e políticas de continuidade.
“Não basta anunciar fundos ou verbalizar vontade: é urgente operacionalizar incentivos regionais e quotas industriais”, sublinha o documento.
A questão foi abordada durante um jantar-conferência promovido pelo JORNAL DE LEIRIA, na passada quinta-feira, no âmbito do lançamento da revista Moldes e Plásticos, na Quinta das Silveiras, em Leiria, onde Tiago Nunes, director de plataformas do unicórnio Tekever, especializado no desenvolvimento e construção de drones, abordou o potencial económico específico para a região de Leiria.
O orador convidado explicou à plateia composta maioritariamente por empresários que os desafios para a Europa residem na necessidade de reverter a perda de controlo tecnológico e das cadeias de abastecimento, dos últimos 20 anos, e na adaptação a um ambiente de conflito que exige “velocidade e flexibilidade”.
Neste momento, alertou, nações asiáticas com a China e a Índia, dominam a tecnologia, a produção e pesquisa na academia, enquanto os Estados Unidos controlam o restante.
Em simultâneo, a Europa vive uma “dependência de materiais”, provenientes de parceiros e antigos aliados “não confiáveis” [como os EUA], o que representa um problema de soberania.
Se esta cadeia for cortada, a Europa perde a capacidade de manter a sua defesa.
Neste cenário, sublinhou Tiago Nunes, as soluções têm de ser desenvolvidas e produzidas dentro da Europa. Infelizmente, dada a sua natureza democrática, com processos de transparência e concursos públicos, a UE não tem a mesma capacidade de resposta em tempos de crise, como este, ao contrário de estados mais centralizados como a China ou os Estados Unidos.
O representante da Tekever advertiu que o modelo antigo não funciona no novo panorama, exigindo-se que a Europa reaja mais rapidamente.
Focado na flexibilidade e na auto-suficiência, o plano estratégico comunitário prevê um investimento elevado.
O programa SAFE dedicou 150 mil milhões de euros a produtos de defesa cuja manufactura deve ser 65% realizada no solo do continente.
Operacionalmente, a aprendizagem nos campos de batalha da Ucrânia, demonstrou que as empresas que conseguem integrar rapidamente e incorporar feedback do campo de batalha garantem ciclos de desenvolvimento mais curtos e ganham a confiança do mercado.
“A confiança tornou-se chave para o sucesso, com contratos baseados na demonstração de que o equipamento funciona e no fornecimento imediato.”
O valor acrescentado reside no custo da oportunidade e em lançar um produto melhor, mais adaptável e mais rapidamente no mercado.
Dito isto, o orador referiu que a indústria de defesa europeia, neste momento, não tem capacidade para o volume de entrega necessário e, assim, há a oportunidade de pegar na capacidade produtiva já instalada fora desta fileira e estimular a economia.
Isto obriga a indústria da defesa a expandir-se e a procurar parceiros e empresas, potenciando o cenário de consórcios.
Tiago Nunes deu o exemplo da Alemanha, onde estão a ser já usadas as unidades de produção da indústria automóvel e empresas como a Rheinmetall, Bosch, e Continental para produção de equipamentos de defesa.
Oportunidades específicas para a região de Leiria Recordando que, no dia anterior, em Leiria, tinha sido apresentado um estudo preliminar para desenvolvimento do Plano Estratégico para as Indústrias da Defesa da Região de Leiria (cluster), o representante da Tekever disse que este território “está bem posicionado” para tirar proveito deste novo ciclo de investimento e rearmamento, graças “à sua infra-estrutura industrial, proximidade geográfica e capacidade de geração de talento”, cujo reflexo é a indústria de moldes e plásticos, a reactividade na mudança de cenários e a proximidade dos chamados “vectores estratégicos”, como a Base Aérea n.º 5, em Monte Real, a academia, no Politécnico de Leiria, e o mar.
Isto porque, a Tekever tem nos seus planos, tal como acontece noutras empresas da mesma área de actividade, o inevitável apoio às nações ocidentais na exploração de novas áreas como o espaço e os domínios marítimos.
Garantindo que a fileira da defesa e a Tekever em específico não é “agressiva para com a concorrência”, como acontece na indústria automóvel, explicou que a Tekever, em Leiria, se apresenta como uma “empresa âncora” que pode gerar “tracção para os parceiros”, sendo um “farol” para outras empresas, apesar de reconhecer que a empresa “é apenas uma gota no mercado da defesa”.
“A Tekever já gasta volumes significativos na região. O orçamento para este ano em peças maquinadas foi de cerca de sete milhões de euros, sendo 95% proveniente da região.”
Além disso, prevê um apoio às startups locais e à diversificação de áreas de negócio, num cenário de criação de um cluster nacional da defesa.
Se correr como planeado, a consequência será o aumento da contratação e exportação de componentes.
A fechar a sua intervenção, Tiago Nunes falou da sua experiência nos primeiros tempos da Tekever, recordando que os drones não eram o principal produto da empresa e que houve necessidade de traçar outro caminho.
“Houve várias oportunidades que não conseguimos agarrar. Passámos, talvez, seis anos a investir e a ver o dia a nascer na empresa. Foi muito sangue, suor e lágrimas. Não sei se há aqui uma receita para o sucesso, mas também houve uma grande dose de sorte.”
O dia dedicado à temática do Talento e Liderança e Defesa, na edição deste ano do Nexxt Leiria, foi a ocasião escolhida para a apresentação do estudo preliminar para desenvolvimento do Plano Estratégico para as Indústrias da Defesa da Região de Leiria, que deverá estar concluído no final deste mês.
No dia 29, ao final do dia, o Castelo de Leiria foi o cenário escolhido para que o estudo conjunto da Comunidade Intermunicipal da Região de Leiria (CIMRL) e da Associação Empresarial da Região de Leiria – Câmara de Comércio e Indústria (Nerlei CCI) fosse divulgado publicamente.
Motivado por uma escalada militar da parte da Rússia, o reforço bélico na Europa tem reflexos na urgente adaptação da indústria da região de Leiria à fileira da Defesa, impulsionada pelo programa SAFE, envelope financeiro europeu no valor de 150 mil milhões de euros, cujo fim é o aumento da capacidade produtiva europeia e reduzir a dependência externa de países como os EUA.
Sublinhou-se que a janela de oportunidade é crítica e de curto prazo, estimada em 1,5 a dois anos, exigindo rapidez no posicionamento da região.
Perante este cenário, afirmou-se que este território está bem posicionado para aspirar a integrar as cadeias de fornecimento de defesa, sendo um candidato natural para liderar um cluster nacional nesta área, pelo seu perfil industrial robusto, em áreas como a metalomecânica de precisão,os moldes, os plásticos, os materiais avançados, a prototipagem e o desenvolvimento de software.
Não foi esquecido, contudo, que a indústria de defesa moderna requer uma vocação dual de uso civil e militar, exemplificado pelos drones que podem ser usados para logística ou combate.
Para catalisar as empresas, a Nerlei CCI lançou a iniciativa Defence Accelerator, sendo que o papel de Leiria nesta estratégia foca-se na participação em consórcios e em nichos de valor dentro da cadeia de abastecimento.
“Este é um momento decisivo para a região de Leiria”, afirmou Gonçalo Lopes, presidente da CIMRL, sublinhando que “há uma necessidade de reconversão industrial do tecido mais relevante da indústria, sobretudo aquele que era fornecedor da indústria automóvel, nos moldes e materiais compósitos, perante o downsizing da indústria automóvel europeia.”










