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De mega-incêndios a ciclones-bomba: estamos sob ataque

Mais e piores ataques podem vir a caminho. Todo o tempo é pouco para os travar.

Daniela Subtil, militante pela justiça climática no Climáximo Daniela Subtil, militante pela justiça climática no Climáximo
7 de Fevereiro de 2026
em Opinião
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Daniela Subtil, militante pela justiça climática no Climáximo
Daniela Subtil, militante pela justiça climática no Climáximo7 de Fevereiro de 2026

A “tempestade mais forte desde que há registo” no país lançou-se sobre a região Centro. Depois dos mega-incêndios da última década, este ciclone-bomba que parecia o “fim do mundo” é mais um fenómeno climático extremo a transformar a nossa região num “cenário de guerra”. Estes fenómenos não são fruto do acaso, mas ataques provocados com pleno conhecimento. Mais e piores ataques podem vir a caminho. Todo o tempo é pouco para os travar.

A Kristin não foi apenas mais uma tempestade, como comprovam a magnitude da devastação e os registos climáticos. Cientistas dizem-nos há décadas que o aumento exponencial da concentração de gases de efeito de estufa (GEE) está a aquecer o planeta rapidamente. Avisaram que uma atmosfera mais quente, ora alimenta tempestades como a Kristin, cada vez mais frequentes e extremas, ora ateia os nossos territórios como se de caixas de fósforos se tratassem.

Este ciclone extratropical é a crise climática a desenrolar-se diante dos nossos olhos, invadindo-nos de medo e ansiedade, particularmente aos que viveram e testemunharam a fúria dos seus ventos na madrugada de 28 de Janeiro. Um medo conhecido das populações de Pedrógão Grande e arredores, ao verem as suas terras e casas tomadas por tornados de fogo. A ansiedade (e tristeza) de ver que as matas, que fazem as nossas memórias de piqueniques e caminhos até à praia, podem nunca voltar a erguer-se, massacradas por sucessivos incêndios e furacões.

O que mais revolta é que a Kristin não foi inevitável; foi intencional. As empresas da indústria fóssil – e associadas – e os governos que as sustêm sabem, desde os anos 70, que as emissões de GEE resultantes da queima de petróleo, carvão e gás fóssil são a principal causa do aquecimento global. Eles sabiam que continuar a queimar combustíveis fósseis seria o fim do clima estável que permitiu o desenvolvimento das sociedades humanas como as conhecemos. E o que fizeram? Continuaram com modelos energéticos e económicos dependentes destes combustíveis, mesmo que isso significasse condenar milhares de milhões de pessoas a uma vida miserável e à morte. Decidiram que os seus lucros valem mais que a vida das pessoas que a Kristin matou, ou que as casas, aldeias e cidades que as pessoas ergueram com o trabalho de uma vida inteira.

Em 2026, à beira de ultrapassar o limite de segurança de um clima estável e com toda a tecnologia que precisamos para um modelo energético de energias renováveis e limpas, o que fazem essas empresas e governos? Decidem continuar o ataque contra a vida no planeta, porque evitar o colapso climático e social não é lucrativo. O governo português entrega dinheiro público à indústria fóssil, através de subsídios, da expansão aeroportuária, ou da organização de eventos de elite de Fórmula 1. Completa o ataque com 5,8 mil milhões de euros destinados a armamento. Quanto à Galp, principal criminosa da guerra climática em Portugal, esfrega as mãos com novas explorações de petróleo na Namíbia e no Brasil, preparando-se para produzir mais petróleo e gás, na ganância de aumentar (ainda mais) os seus lucros-recorde.

Os que seguem o culto do lucro acima de tudo não nos vão salvar. São eles os responsáveis por este ciclone-bomba e também pela eucaliptização da região num clima cada vez mais quente. São eles que vão continuar a abandonar as populações, como fizeram em Pedrógão Grande em 2017. E são eles que nos empurram para um novo clima que, se nada fizermos, apenas se tornará mais extremo e fatal, ao ponto de ganhar à nossa capacidade de adaptação.

Resta-nos uma opção para protegermos a nossa região de mais e piores ataques: organizarmo-nos para cortar emissões radicalmente, pondo fim à indústria fóssil. Os próximos meses são de apoio às populações mais afetadas e de reconstrução. Os próximos anos têm de ser da luta – das nossas vidas pelas nossas vidas – para travar a crise climática e construir uma sociedade centrada em garantir o bem-estar de todas as pessoas.

 

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