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Home Crítica

Artes visuais | Visita ao atelier do João Jacinto

Leonardo Rito, pintor Leonardo Rito, pintor
6 de Março de 2026
em Crítica
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Leonardo Rito, pintor
Leonardo Rito, pintor6 de Março de 2026

Há duas semanas tive o prazer de saciar um dos meus maiores prazeres: visitei um atelier de pintura.

Desde jovem que me sinto atraído a pintura, não sei bem explicar porquê, e quanto mais me debruço, mais percebo o quanto ainda tenho para explorar este assunto. Tenho a sensação de estar extasiado, ou hipnotizado, por vezes. Curto ver pintura em museus, em exposições colectivas e exposições individuais, em galerias de arte consolidadas ou afamadas e espaços mais improvisados também. Curto ver pintura em fachadas e interiores de edifícios, em azulejos e cerâmicas, em restaurantes e bares, em casas e locais de trabalho, sozinho, em grupo, com a família e com desconhecidos, em aulas e palestras, no YouTube e no Instagram… Vejo-a a todo o momento e em todo o lado a piscar-me o olho, e eu embevecido, constantemente arrebatado por ela, tomo nota.

De tantos maneiras e de tantos sítios onde posso ver pintura, para mim há um onde ela se expressa de um modo especial: no atelier do pintor. Se em cima disso, ele estiver lá, a experiência torna-se então ouro sobre azul. E foi isto que aconteceu. O Gonçalo e eu fomos almoçar um cozido ao restaurante O Caçador nos Anjos, com o João Jacinto (Lisboa, 1966) que em seguida nos fez uma visita guiada ao atelier. Entramos por uma porta, para uma pequena sala, que tinha uma janela e outras duas portas, uma para a casa de banho, a outra para o andar de baixo. Descemos para um espaço amplo, enorme, de paredes e tectos brancos, iluminado ora com luz natural, por entre pequenas clarabóias, ora por luzes brancas suspensas do tecto. Havia pinturas em todo o lado. As paredes estão totalmente ocupadas, assim como o chão também. Vou desenhando mentalmente pequenos trajectos e vou deambulando por entre um labirinto de pinturas, tentando tudo por tudo para não as pisar. Cada tela está repleta de matéria. São pesadas de certeza – pensei, só a fazer as contas à quantidade de tinta que via em cada uma.

O Gonçalo começou a desfolhar um grande monte, que continha umas centenas de pinturas em papel, mais ou menos tamanho A3 produzidas com carvão, grafite e tinta acrílica branca. Via-se castanho a aparecer por todo o lado e o João mostrou-nos que apaga os charutos que fuma nos recipientes com água onde mergulha os pincéis. Quando quer fazer uso do pincel, tira-o daquela água suja de charuto e o castanho é transportado involuntária/voluntariamente para a obra. As pinturas do João que víamos eram também assim, meio por querer meio sem querer, de gesto rápido, mas ponderado, sujo, mas certeiro, cru e reduzido ao elementar, mas rico em detalhe. Pinta espaços exteriores e interiores ora com, ora sem mobília, com pessoas de corpo inteiro e com pedaços de corpos desmembrados, pinta candeeiros e caveiras, close-ups de caras e figuras estranhas com asas, barcos em paisagens marítimas e natureza-morta. Produz muito e bem e o seu trabalho é apreciado pela comunidade.

Quando estou perante o trabalho de um autor, do modo como nós ali estivemos a ver naquela tarde o trabalho do João, não filtrado, comentado aqui e ali por ele, mas com muito pouco bullshit a rodear, parece que de algum modo dou um mergulho um pouco mais profundo neste assunto da pintura. Despedimo-nos, deixei o Gonçalo na baixa e regressei pra Leiria com toda aquela experiência ainda a digerir, extasiado, mais uma vez hipnotizado pelo trabalho dum excelente pintor.

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