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Escutar o Mundo | Ver o silêncio

Cada retrato é uma conversa entre a artista e o espelho – e também entre a vida e a inevitabilidade da passagem do tempo

Helena Rafael, assessora de imprensa Helena Rafael, assessora de imprensa
12 de Março de 2026
em Opinião
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Helena Rafael, assessora de imprensa
Helena Rafael, assessora de imprensa12 de Março de 2026

Profundamente admirada nos países nórdicos pela originalidade do seu estilo –  e uma das artistas favoritas da actriz Ingrid Bergman –, a pintora finlandesa Helene Schjerfbeck (1862-1946) continua ainda hoje relativamente desconhecida do público em geral e de muitos apreciadores de arte. As suas obras podem ser vistas agora, pela primeira vez, numa vasta exposição que estará patente até dia 5 de Abril no The Metropolitan Museum of Art, em Nova Iorque.

Helene Schjerfbeck nasceu em Helsínquia, no seio de uma família de escassos recursos. A sua infância ficou marcada por um grave acidente que desde cedo lhe roubou a mobilidade, afastando-a do universo infantil. A queda, que poderia ter limitado o mundo de qualquer criança, acentuou, porém, o seu espírito de observação que desde logo dedicou à criação artística, por influência do pai. Enquanto as outras crianças brincavam, Helene aprendia a olhar. E desse olhar nasceu uma das obras mais singulares da pintura europeia.

Helene ingressou cedo na escola de artes de Helsínquia, pela mão de um professor consciente do seu talento invulgar, que surpreendia simultaneamente professores e colegas. Este reconhecimento permitiu-lhe viajar e estudar em cidades como Paris, onde contactou com o naturalismo e com as transformações que agitavam a pintura europeia no final do século XIX. Nessa fase inicial da sua carreira, as suas obras eram profundamente realistas, quase cinematográficas. Helene pintava crianças, interiores silenciosos, episódios do quotidiano, naturezas-mortas.

Contudo, quadros como The Convalescent, um dos seus mais célebres trabalhos, revelavam já algo transversal à sua obra: a delicada fronteira entre fragilidade e persistência. Com o tempo, porém, Helene começou a afastar-se da representação tradicional. O cansaço e a fragilidade física, levaram-na a recolher-se durante longos períodos na Finlândia, longe das capitais artísticas e dos ruídos do mundo. Esse isolamento não significou, porém, estagnação criativa; pelo contrário, tornou-se um laboratório interior. As suas formas simplificaram-se, as cores tornaram-se mais contidas, e as figuras representadas começaram a emergir da tela como memórias brumosas.

Este seu percurso interior encontra talvez nos auto-retratos que pintou ao longo da vida a sua manifestação mais sublime. Neles vemos não apenas um rosto, mas o passar do tempo inscrito na matéria da pintura. Cada retrato é uma conversa entre a artista e o espelho – e também entre a vida e a inevitabilidade da passagem do tempo. À medida que envelhecia, as linhas dos seus retratos tornavam-se mais austeras, quase espectrais, sem deixar de ser comoventes, como se Helene estivesse a reduzir a imagem ao essencial: luz, sombra, presença.

Quando morreu em 1946, em Saltsjöbaden, na Suécia, deixou uma obra aparentemente discreta diante das grandes correntes artísticas europeias. No entanto, os anos tornaram claro que a sua pintura contém algo de profundamente moderno: a coragem de eliminar o excesso e de procurar, no silêncio da forma, aquilo que é irredutivelmente humano.

As telas de Helene Schjerfbeck não são apenas pinturas, são uma espécie de fôlego visual. Nelas habita uma quietude rara – aquela que nasce quando a arte deixa de querer impressionar o mundo e passa simplesmente a escutá-lo.

Tópicos: escritaescritoraHelena Rafaeljornal de leiriaLeirialiteraturalivrosopiniãoretrato
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