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Se eu fosse coisa

Tal como os gatos que se plantam por trás do vidro

João Lázaro, psicólogo clínico e director do TE-ATO João Lázaro, psicólogo clínico e director do TE-ATO
26 de Março de 2026
em Opinião
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João Lázaro, psicólogo clínico e director do TE-ATO
João Lázaro, psicólogo clínico e director do TE-ATO26 de Março de 2026

Se eu fosse coisa queria ser uma janela para estar sempre a olhar a rua.

Tal como os gatos que se plantam por trás do vidro a observar o que se move para além deles.

Quedo e ensimesmado, usufruindo do direito próprio de fazer nada.

Só para contrariar quem persiste na impertinência de perguntar se não tenho nada para fazer, só porque acreditam que o movimento dos corpos é prova de que se está a ser produtivo e útil a alguém ou a uma causa.

Por modelo gostava de ser uma daquelas janelas com vão saliente, que parecem estender a casa para o exterior, a intrometerem-se no fora que é a rua, para assim quem estivesse lá dentro pudesse ver melhor o que se passa no exterior.

E se não fosse pedir muito, em madeira pintada de branco e com múltiplos vidros quadrados.

Dessa maneira, creio, quem estivesse no interior poderia ter uma perspetiva diferente de uma mesma coisa observada, conforme o quadrinho que escolhesse para olhar.

É que esta protuberância no edifício permite mais espaço para quem está no interior, enquanto se oferece simultaneamente à entrada de mais luz.

E é sabido que os espaços exíguos nos acanham o pensamento, bem como a falta de luz nos impede de ver o contorno e a textura das coisas.

Se eu fosse coisa e pudesse ser uma janela com vão saliente e com vidros aos quadradinhos e com tanta luz a entrar para o interior, talvez quem estivesse dentro a olhar para fora lhe ocorresse perguntar-se: afinal quem sou eu para além daquilo que já sei que sou?

Porque a resposta é o infortúnio da pergunta, um cacho delas viria, por certo, porque por cada resposta encontrada outra questão se levanta de novo, e saborear a inquietação da resposta que não temos é o preço a pagar por sermos seres pensantes.

Deste modo o olhar para fora por cada um dos quadradinhos de vidro levaria à constatação que a realidade objetiva, concreta, mensurável, mais não é que a perceção de quem observa, pelo que a mesma realidade é percecionada de modo diferente por observadores diferentes, quando não mesmo diferente é a perceção da realidade conforme a circunstância em que o sujeito observa uma mesma coisa.

E após esta outra pergunta viria, aquela em que nos questionamos o que representa para cada qual a coisa observada, e aí viria a constatação que apenas nos é possível ver quando sabemos o que estamos a ver.

Sendo janela, quiçá permitisse a quem por ela olhasse ter o vislumbre de reconhecer que somos o modo como olhamos e somos olhados.

Que o olhar dos outros que recai sobre nós nos esclarece sobre quem somos de facto, mas também que o olhar o outro faz dele pessoa inteira e merecedora.

E deste jogo de olhar e ser olhado nos fosse a todos reconhecido o direito à não-transparência, contrariando o modo como alguns insistem em fazer do seu igual coisa indiferente.

Tópicos: João LázaroopiniãoSe eu fosse coisaTal como os gatos que se plantam por trás do vidro
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