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Home Crítica

Artes Visuais | Xerazade – a colecção interminável do CAM

Leonardo Rito, pintor Leonardo Rito, pintor
1 de Maio de 2026
em Crítica
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Leonardo Rito, pintor
Leonardo Rito, pintor1 de Maio de 2026

Estava-me mesmo a apetecer abrir a pestana com um pouco de arte contemporânea da boa, da que enche as medidas, mas convencer a esposa e as filhas a despender mais um domingo nestas coisas pareceu-me muito pouco provável. Fui ao Praça Caffé e desfolhei o Ipsilon, mais uma vez, na esperança que algo me despertasse a atenção. Li um texto sobre uma exposição do fotógrafo americano Todd Webb, que andou por Portugal nos anos oitenta a recolher imagens, entre as quais muitas da Nazaré e de S. Martinho do Porto. Muito semelhante ao que fez um meu amigo romeno chamado Mircea Albutiu em dois mil e vinte e dois. Achei interessante a dele por isso ponderei que ia gostar também da visão dum yankee. Estava patente na Gulbenkian, que por dezenas de razões, inclusive o ser grátis, é um excelente sitio para ir passar um domingo. Virei a página, do fim para o inicio do jornal, claro, e nem por acaso tropecei numa publicidade que anunciava, na mesma fundação, a exposição cujo título se tornou a minha tábua de salvação, Arte e Moda. Perfeito – pensei – e atirei a ideia pra cima da mesa, ao que a família me respondeu logo que sim.

Chegamos às três e um quarto e estava uma fila de pessoas a serpentear o edifício. Parece que muita gente tinha tido a mesma ideia que eu. Sentei-me num beirado a fumar um cigarro enquanto as miúdas iam ao WC e meti conversa com um gajo que estava a meu lado a fazer o mesmo que eu. São maioritariamente mulheres – disse com um tom meio machista brincalhão, e eu ri-me. Disse-me também que todas as outras exposições estavam com poucas pessoas e que podia visitar o resto na boa. Não vimos a exposição Arte e Moda, mas adoramos as fotos do Todd Webb, por vermos sítios familiares mas com auras diferentes. Vimos fotos de pessoas vestidas com outros tipos de trajes, ruas com poucos carros e com outro tipo de estética, calçadas com aspecto descuidado e senhoras a grelhar sardinhas no passeio. Deu pra fazer as miúdas rir e para eu e a Tina sentirmos uma certa nostalgia.

Eu gostei duma colectânea de obras de artistas maioritariamente portugueses, que pertencem à coleção da fundação, e que estão reunidas na exposição Xerazade – a Coleção Interminável do CAM (Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian). Apreciei especialmente uma pintura do Manuel João Vieira, chamada “O Coleccionador”, que me piscou o olho, novamente com um tom meio machista brincalhão, e eu ri outra vez. A pintura mostra na parte central, um homem que tanto me lembra o Pedro Cabrita Reis como o Pinto da Costa, sentado num cadeirão, a fumar um charuto e a olhar para mim com um ar sinistro e excêntrico. À sua volta está uma generosa quantidade de pinturas e esculturas que acaba por ocupar a restante área da obra. São imensos e extravagantes, todos estes objectos que rodeiam o colecionador. Vemos Titian e Andy Warhol, colunas gregas e bustos romanos. As cores são imensas e o detalhe é apresentado de forma clássica MJV.

Agora que escrevo este texto, são tantas as questões que estão a ser levantadas na minha cabeça por causa desta pintura, que nem consigo duma forma decente pô-las em palavras. Por um lado parece-me o MJV a morder a mão que o nutre, criticando a opulência, no qual ele próprio se inclui, por outro apresenta o colecionador com um ar satisfeito no meio da sua arte, como que a dizer que a arte satisfaz. Para quem queria abrir a pestana com arte contemporânea, não tá mau, mas em vez de vir aliviado, dou por mim sobressaltado por causa desta pintura, confuso na sua interpretação e maravilhado na sua execução.

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