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Home Crítica

Artes visuais | Manuel João Vieira espalhafatosamente* no meio da rua

Leonardo Rito, pintor Leonardo Rito, pintor
29 de Maio de 2026
em Crítica
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Leonardo Rito, pintor
Leonardo Rito, pintor29 de Maio de 2026

O mês passado deparei-me com uma pintura do Manuel João Vieira, numa exposição colectiva no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, que valeu a viagem a Lisboa. Segunda feira, dia dezoito, fiz novamente a viagem a LX à procura da pintura do MJ, desta vez exposta numa individual no MAAT. Fui com as expectativas altas, mas deixem-me confessar que não estava preparado para o que vi. São cinquenta trabalhos entre os quais bué pinturas, um rolo de papel de cenário de dez metros, desenhados/pintados a tinta da china, e umas cinco ou seis esculturas. Quando entramos lemos o pequeno texto do curador e imediatamente ao lado vemos um auto-retrato em close up, onde a figura do autor nos anuncia o que nos espera, um abrir de olhos bem aberto.

A ilha púrpura: notas e paisagens surpreende por ter uma imensa quantidade de pinturas, a maioria delas bem grandes, e em cada uma delas um enorme espectro de cores. Isso foi o que me cativou logo a entrar, quando tive uma visão geral da exposição, – tudo isto é muito rico em cor – pensei.

A mostra está organizada de uma forma elegante, a montagem combina telas de diferentes tamanhos, por vezes encostadas umas às outras, criando ligações entre as narrativas e quebrando a vulgaridade da tela espaçada de forma não intrusiva. Ali as telas interferem umas com as outras, não há como fugir a isso, e o efeito é maravilhoso. Na parede maior vemos uma destas assemblage, um conjunto de dez pinturas, todas elas com a sua própria narrativa, encostadas de forma simétrica, obtendo uma espécie de forma de diamante invertido.

Algumas das pinturas, principalmente as maiores, por estarem expostas em paredes curvas, seria de esperar vê-las a terem um vão a aparecer por trás, mas como ali as vemos desengradadas, essa questão não surge, e além disso, temos oportunidade de ver o que geralmente as grades e as molduras escondem, o que está para fora do rectângulo pintado. O mesmo acontece com um rolo de de papel desenhado apenas a preto. Por ser comprido e exposto numa parede curva torna-se difícil conseguir ver tudo num só olhar. Nem me parece que era suposto, porque a cada oitenta/noventa centímetros temos um novo cenário que nada tem a ver com o anterior ou com o seguinte. No centro da sala, está uma instalação, que mostra um comboio em andamento, numa forma circular, sobre uma lindíssima mesa onde cada gaveta aberta serve de suporte para bustos do Lenin. LOL.

O Manuel parece que tá sempre a gozar, por vezes de forma séria e educada, outras vezes instruída e atrevida como o caraças, mas sempre a gozar. O feeling geral que tenho do trabalho dele é que gosta de escarnecer, o que me faz rir. O autor diz e é aparente que vem de uma espécie de banda desenhada, de proporções estranhas, vistas confusas e cores espalhafatosas*, misturado com um humor Bocagiano. Tudo isto pode ser constatado na exposição no MAAT, mas para nós, meia dúzia de leirienses privilegiados, que o vimos atuar sexta-feira passada, literalmente no meio da rua, ainda mais revelador se torna, o estilo espalhafatoso* do Manuel João Vieira, inconfundível e incontornável.

Quem tiver interesse, o site do MAAT tem umas fotos fixes e o canal de Youtube da Galeria Miguel Nabinho alberga uma entrevista ao autor orientada pelo curador João Pinharanda.

* adjetivo usado para descrever alguém ou algo que chama muita atenção de forma exagerada, ruidosa ou extravagante

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