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A Gaivota Raimunda e o frágil muro de cal

Um dia, a gaivota Raimunda sentiu o seu mundo desabar. Esse dia mostrava a idosa colapsada no chão. E foi, nesse dia, que a gaivota voou mais rápido que um furacão

Florbela Oliveira, Professora e escritora Florbela Oliveira, Professora e escritora
16 de Julho de 2026
em Opinião
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Florbela Oliveira, Professora e escritora
Florbela Oliveira, Professora e escritora16 de Julho de 2026

Dizem que viver com gaivotas por perto é acordar com a algazarra de quem voa com firmeza, segurança e coragem. Dizem que é maldizer comportamentos, sobretudo o que imunda carros, casas e calçadas. Dizem que é esbracejar, afastando aqueles seres voadores que literalmente, «retiram o pão da boca» de quem, em vão, o protege.

A gaivota Raimunda fugia, no entanto, a este estereótipo. Era uma criatura social, e sociável, que se juntava em longas tertúlias com dona Ausenda, uma velhinha deixada à sorte por quem um dia tinha tido a sorte de a ter como mãe, passo o jogo de palavras.

Assim que o Sol embalava a sua trouxa e adormecia suspenso nas estrelas, Raimunda voava e ficava, sobranceira, aguardando sobre um frágil muro de cal que cercava a casa branca de janelas debruadas a azul, a velha mulher.

Aquele débil muro separava a sua de uma enorme casa, há pouco tempo construída, arruada de palmeiras exóticas e de faustosos mármores que luziam a cada brecha de luz. Quem lá morava?

Nem a ave nem Ausenda sabiam, mas havia de ser alguém lá do topo, pensavam ambas, daquelas pessoas inatingíveis, como os filhos dela, que a renegavam. Apesar de tudo, mantinha-os quentinhos, aninhados no seu coração vivo e doce. Tinham sido as escolhas que fizera na vida que ditaram o afastamento.

Havia tanto para lhes explicar. Havia tanto para lhes dar a conhecer. Havia tanto por dizer. Havia tanto para com eles viver, mas, cada um vê o que lhe apetece e vive o que dá mais jeito. Como fazer entender que ninguém fica onde não é feliz, que ninguém fica num lugar onde não cresce?

A vida, talvez a vida os levasse a entender. Como todos os assuntos que não se resolvem, aquele também resolvido estava. Ou não!

A verdade, é que as tertúlias entre Raimunda e Ausenda versavam sobre isso mesmo: o desenovelar de passados e o carpir de dores. Um dia, o bulir lento de pés pesados da dona Ausenda a aproximarem-se do muro, à hora marcada, não aconteceu.

Um dia, a gaivota Raimunda sentiu o seu mundo desabar. Esse dia mostrava a idosa colapsada no chão. E foi, nesse dia, que a gaivota voou mais rápido que um furacão.

E foi, nesse dia, que voou, com quanta força tinha, contra os vidros isolantes e inquebráveis daquela casa há pouco tempo, ao lado da de dona Ausenda, construída. E, nesse dia, tateando paredes, encontrou uma porta gigante que se abria para um enorme salão. A esbracejar, uma jovem solitária iniciou perseguição imediata à criatura. O voo, sabia Raimunda, teria de ser calculado ao pormenor, por isso, fez o que melhor sabia fazer, sobre o carro descapotável. Não, não é o que estão a pensar!!!

Bicou um casaco leve e sumptuoso e, esvoaçando, levou-o consigo, certificando-se de que era seguida. Agora, o frágil muro de cal caiu. Agora, o muro de mármore reluzente ocupou todo o espaço. Agora duas gerações, e uma gaivota, alongam-se em alegres tertúlias, ora numa casa construída, ali, ao lado, ora na casa branca de janelas debruadas a azul.

Texto escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990

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