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Chamar os Bois pelos nomes

"Sinto sinceramente que vacas prenhas em matadouros são muito mais respeitadas e com melhor assistência do que as mulheres que hoje vão parir neste país", Daniela Anéis

Daniela Anéis, Psicóloga clínica e terapeuta familiar e de casal Daniela Anéis, Psicóloga clínica e terapeuta familiar e de casal
27 de Julho de 2026
em Opinião
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Daniela Anéis, Psicóloga clínica e terapeuta familiar e de casal
Daniela Anéis, Psicóloga clínica e terapeuta familiar e de casal27 de Julho de 2026

O que aconteceu é um retrocesso nos direitos das grávidas e na protecção dos cidadãos.

Não queremos saber do SNS, nem de primar pelas práticas actualizadas e de excelência. Aqui o que interessa é manter a linha de montagem e a produção a seguir.

A baixo custo, de preferência. E claro proteger quem abusa do seu poder. Más práticas, negligência grosseira?

Nada disso acontece nestas classes tão especiais e iluminadas de profissionais.

E quando os profissionais denunciam más práticas de colegas? Então são despedidos, afastados, calados e descredibilizados.

E os que ficam no SNS? Trabalham em condições desumanas.

Para quê? Para entrar em modo sobrevivência e simplesmente agir. E claro com remunerações interessantes para sermos coniventes com um sistema doente e abusador.

Temos de parar de achar que só acontece às mulheres dos outros. Eu posso dizer que fui vítima de violência obstétrica no meu primeiro parto.

Foi-me realizada uma manobra de Kristeller não consentida e absolutamente desnecessária ao trabalho de parto, com consequência de lesões em mim e na minha filha.

Porque não me queixei? Porque ingenuamente acreditei que se aquilo tinha acontecido assim, era porque era o melhor na altura.

Em conversa com profissionais de saúde e após o movimento lançado pela OVO – Observatório de Violência Obstétrica, e após ler relatos semelhantes ao meu, percebi o que efetivamente havia acontecido.

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Porque não me queixei?

Porque o período de queixa já havia prescrito. Porque somos um país com uma cultura de silêncio. O que fiz? Assinei as petições e mais uma vez acreditei no sistema.

Acreditei que seria ouvida juntamente com outras mulheres, que não podendo alterar a minha história, poderia contribuir para que outras não sofressem o mesmo.

O que recebemos? Uma grande chapada na cara e mais uma vez a mensagem de “cala-te. Tu não és importante.”

Sinto sinceramente que deve haver vacas prenhas em matadouros muito mais respeitadas e com melhor assistência do que as mulheres que hoje vão parir neste país. Vamos continuar a deixar que aconteça?

Nota: No meu segundo parto fui atendida por uma equipa excelente com práticas humanistas. Um bem-haja a todos os bons profissionais deste país que ainda seguram o SNS que o governo quer deixar cair!

Tópicos: assembleia da repúblicadireitos das mulhereshumanismo na saúdepolíticas de saúdepráticas médicasprotecção da grávidasaúde maternalsaúde públicasnsviolência obstétrica
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