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Deixa-me estar calado | O instrumento que ainda não existe

Imaginem um músico, em Tóquio, Buenos Aires ou Helsínquia, anunciar ao público: a próxima obra será interpretada num instrumento inventado em Leiria

Bruno Gaspar, artista plástico e investigador Bruno Gaspar, artista plástico e investigador
31 de Julho de 2026
em Opinião
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Bruno Gaspar, artista plástico e investigador
Bruno Gaspar, artista plástico e investigador31 de Julho de 2026

Quando, há algum tempo, me pediram ideias para a primeira candidatura de Leiria a Capital Europeia da Cultura, respondi com uma frase que, admito, parecia saída de uma noite mal dormida:

— E se inventássemos um instrumento musical?

Houve um silêncio. O que é sempre bom sinal. Por vezes, as  boas ideias precisam primeiro de ser digeridas.

A verdade é que todos os instrumentos foram novos um dia. O Theremin, as Ondes Martenot, o Chapman Stick ou o Hang também começaram por parecer estranhos. Hoje fazem parte da música.

Eu não sou músico. Sou apenas um melómano. O único instrumento que toco é um assobio que costuma terminar quando alguém diz: “Já chega.”

Mas já vi ideias transformarem-se em música. Numa campanha da antiga SIMLIS sugeri uma orquestra feita com sanitas, canos, baldes, escovas de dentes e outros objectos que tantas vezes acabam no rio. Aconteceu mesmo. Houve maestro, músicos, concertos e até televisões.

Por isso continuo convencido de que Leiria podia fazer algo verdadeiramente original: inventar um instrumento musical.

Um instrumento completamente novo, colectivo, pensado para duas, três, quatro ou todas as pessoas necessárias para criarem música em conjunto. Talvez até com alguém a pedalar uma bicicleta para lhe dar movimento, ritmo ou energia enquanto os outros tocam. Um instrumento onde ninguém consiga fazer música sozinho, porque há melodias que só existem quando são construídas em conjunto.

Vejo facilmente esse instrumento como uma das imagens de marca da próxima candidatura de Leiria a Capital Europeia da Cultura. Uma ideia capaz de unir tradição, inovação, arte, ciência e comunidade. Um símbolo que ligasse o passado ao presente e, sobretudo, ao futuro. Um objecto que pudesse ser visto, ouvido e experimentado por todos, transformando a colaboração na própria música.

Ilustração de Bruno Gaspar

Faria ainda mais sentido numa cidade que é Cidade Criativa da Música da UNESCO desde 2019. Em vez de apenas celebrar esse reconhecimento, Leiria podia dar um passo que nenhuma outra cidade deu: oferecer ao mundo um instrumento novo que pudesse ser construído, estudado e tocado em qualquer continente, mas que tivesse sempre uma origem: Leiria.

Imaginem um músico, em Tóquio, Buenos Aires ou Helsínquia, anunciar ao público:

— A próxima obra será interpretada num instrumento inventado em Leiria.

O Politécnico poderia ajudar. Os músicos também. Os engenheiros, os artesãos, os artistas plásticos. E até aquele serralheiro que nunca leu um tratado de acústica, mas resolve problemas antes do pequeno-almoço. Nem todas as melhores ideias pedem currículo.

Leiria não ganhou a primeira candidatura. Não faz mal. As cidades, tal como as pessoas, nem sempre acertam à primeira. Mas talvez seja precisamente essa a vantagem. Agora já sabemos que não basta fazer bem. É preciso fazer diferente.

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