As conclusões pertencem ao estudo Uma Década de Sorriso em Portugal (2015-2025): Um Retrato Emocional. O universo das mais de 322 mil fotografias analisadas demonstrou que os portugueses estão a sorrir cada vez menos, desde 2015, sendo esse um indicador preocupante pelas consequências na saúde e na interacção social. Pois a felicidade está na cara das pessoas e o sorriso é um sinal que está a desaparecer a “olhos vistos”.
Nesta pesquisa dirigida pelo professor Freitas-Magalhães, realizada pelo Laboratório de Expressão Facial da Emoção, da Universidade Fernando Pessoa, no Porto, observou-se uma “acentuada diminuição da frequência e da intensidade do sorriso”, que é justificada por diversas variáveis, como o envelhecimento demográfico da população, o impacto de factores socioeconómicos (crises financeiras, pandemia, [LER_MAIS]inflação, insegurança) e também alterações nos padrões de socialização, com menos interacção presencial, clima emocional “mais defensivo e contido” do colectivo, que inibe o sorriso espontâneo.
Não é cientista, mas dedica-se à comédia há cerca de 20 anos. Miguel Rocha, humorista natural da Marinha Grande, diz não saber exactamente se os portugueses se riem mais ou riem menos. “O que acho é que os portugueses têm dificuldade em rir de si próprios. E a destilação de ódio que circula nas redes sociais também não contribui. Quando se tenta fazer rir de assuntos importantes, têm dificuldade em vê-los de forma leve. Criticam.”
Quanto aos temas capazes de roubar sorrisos, esses variam, observa Miguel. “São inúmeros os temas que podem ser usados para fazer rir. E até há modas. Sobretudo quando é um humor mais ligado à actualidade.” “Há quem goste de humor físico e ri quando alguém escorrega, alguém cai. Há quem goste de humor que resulta de uma observação inesperada sobre o dia-a-dia”, refere o humorista, para quem não existe propriamente limite para o humor. “Talvez o limite seja determinado pelo contexto, pela consciência, pela moral de cada um. Mas, a partir do momento em que o Papa Francisco recebeu humoristas e disse que é possível rir de Deus, talvez não faça sentido questionar”, prossegue o comediante.
Quanto ao estilo de humor que mais gosta, Miguel elege aquele que resulta de uma observação inesperada sobre a actualidade. Em Portugal, coloca no top o “Herman José, que está sempre a reinventar-se, Bruno Nogueira, pela criatividade e acutilância, e Ricardo Araújo Pereira, pelo pensamento crítico sobre a actualidade”. Isto, sem esquecer três nomes de uma geração mais recente, que “trabalham o humor de forma diferente e que são muito boas no que fazem: Inês Aires Pereira, Gabriela Barros e a Bumba na Fofinha”.
Pedro Tochas, natural de Ansião, dedica-se à comédia desde 1991 e ao longo de 35 anos já actuou em diversas latitudes, com espectáculos diversos, entre stand-up, malabarismo, teatro de rua, etc. “Tenho trabalhado pelo mundo inteiro e os portugueses não são um público diferente dos outros. Há gente que gosta de Chaplin e de Mr. Bean pelo mundo inteiro. Há depois algumas coisas que fazem rir na Noruega e em Portugal não, porque têm a ver com vivências locais. Um português não vai rir da mesma maneira com piadas sobre a neve como poderá rir um norueguês”.
“Humor é como a música”, compara Pedro Tochas. “São muitos os estilos, muitas as músicas. E por uma pessoa gostar de música, não quer dizer que goste de toda a música.” “Em Portugal, se até há alguns anos havia um canal ou dois de televisão, e todos acabavam por ver o mesmo, hoje há muita oferta, mais fragmentação”, observa o humorista.
E questionado sobre os limites do humor, Pedro Tochas devolve: “Quais são os limites da arte? Não pode ter. Isso é voltar à censura.” “O que acontece é que, quando é mal feito, num tema que não é fácil, nota-se”, refere Pedro Tochas. “Trabalha-se imenso para parecer que não deu trabalho nenhum.”
Agrada-lhe o facto de chegarem constantemente novas vozes, “que trazem temas que nunca ninguém pensou, que abrem os olhos para vivências”. Quanto ao seu comediante preferido, é inglês e chama -se Daniel Kitson.









