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Home Depressão Kristin

Inundada e às escuras, a TJ Moldes cumpriu encomenda da Porsche com organização, frango e carne à alentejana

Reconstruir à prova de tudo

Jacinto Silva Duro Jacinto Silva Duro
2 de Março de 2026
em Depressão Kristin
João Faustino coordena reorganização da empresa
João Faustino coordena reorganização da empresa
João Faustino coordena reorganização da empresa
João Faustino coordena reorganização da empresa
João Faustino coordena reorganização da empresa
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João Faustino, administrador da TJ Moldes, atravessa a rua da Indústria Metalúrgica, na Marinha Grande, em direcção aos dois edifícios mais antigos da empresa, destruídos pela tempestade Kristin, há um mês.

Na passadeira, insurge-se com os automobilistas que, em vez de pararem o contornam, desrespeitando o código e a segurança.

“Ao fim de semana, parece que vêm ver a onda da Nazaré”, diz dos visitantes que a cidade recebe para ver os estragos feitos pelos ventos ciclónicos.

A TJ Moldes foi um das empresas mais afectadas pela destruição e, passadas quatro semanas, muitos dos 112 trabalhadores – um número quase profético que coincide com o das emergências – continuam ocupados com a limpeza e demolição de estruturas danificadas ou a tentar realocar máquinas de milhões e de várias toneladas, para zonas secas onde a humidade não danifique os componentes electrónicos.

João Faustino sabe que apenas será possível fazê-lo com as de menor dimensão.

Para as maiores, o desafio é embrulhá-las em lonas e esperar pelo melhor.

As duas grandes naves destruídas por ventos na ordem dos 200 km/h representam um prejuízo directo superior a cinco milhões de euros.

O empresário sobe uma pequena rampa, atravessa portas de vidro e, no interior da TJ Aços, um cheiro forte a humidade agride-nos o nariz.

A água aproveita a ausência de telhados e cai dos tectos para o chão, infiltrando-se pelo piso até à sala dos servidores. João Faustino conta que, após a passagem da Kristin, embora destelhada aquela parte do edifício só tinha uma janela partida, contudo, por causa dela, com a passagem do Leonardo rebentaram todas.

“Kristin, Leonardo, Marta… já lhes perdi a conta!”

Apesar de tudo, a TJ Moldes vive um cenário de contrastes, onde a destruição física de infra-estruturas e maquinaria avaliadas em milhões de euros colide com a vontade férrea de manter a produção activa.

Nas últimas semanas, a resposta à catástrofe exigiu uma logística de emergência, coordenada a partir da única sala seca em toda a empresa.

Foi a partir dali, o centro nevrálgico da operação, com vista para os telhados, vedações e portões arrancados, que se organizaram os contactos, se fizeram as reuniões mais importantes e se tomaram as refeições em modo familiar, em comunhão entre administração, voluntários e colaboradores.

“Foi uma cantina democrática onde partilhávamos refeições. Uns frangos e carne de porco à alentejana, comendo em pratos de plástico no meio da confusão”, conta João Faustino.

Sem electricidade durante as primeiras semanas, a empresa recorreu a vários geradores para retomar o trabalho.

Quando “a luz”, por fim, regressou, vieram também picos que queimaram cartas electrónicas de máquinas já fustigadas pela chuva e pela humidade vinda do mar.

Além das intempéries, a TJ Moldes tem ainda de lidar com a falta de escrúpulos de alguns.

Logo no dia 28 de Janeiro foram organizados piquetes de vigilância nocturna após se verificarem tentativas de furtos e intrusão nas instalações danificadas, onde alguns indivíduos tentaram aproveitar o caos para roubar materiais e metais.

Outro obstáculo à reconstrução surge da própria dinâmica do mercado com orçamentos para novos telhados a serem até três vezes superiores ao valor real e justo, com prazos de entrega que podem chegar aos seis meses apenas para uma cobertura em telhado sanduíche.

Apesar de tudo, a remoção de “carradas e carradas de lixo”, continua e a preocupação mais urgente é a manutenção das máquinas de precisão.

“O maior prejuízo não é o visível, é o invisível nas máquinas. Se aquela corrosão não for retirada de imediato tem um efeito devastador que se vai aprofundando mais e mais”, explica o administrador.

A operar já a 80% da capacidade João Faustino explica que a empresa está já a operar a cerca de 80% da sua capacidade nas suas outras três unidades.

Foi assim que conseguiram, mesmo em cenário de catástrofe, finalizar uma encomenda que tinham da Porsche.

Não obstante, a pressão é constante. Gigantes da indústria automóvel, como a BMW realizaram visitas nas últimas semanas para monitorizar o estado dos seus moldes.

Para dar resposta, a TJ Moldes reorganizou as suas secções e deslocou pessoal das unidades paradas para as que permanecem operacionais.

Além disso, no meio da adversidade, houve espaço para o espírito de entreajuda.

Nos dias a seguir à tempestade Kristin e à medida que as depressões Leonardo e Marta se abatiam sobre o extenso território massacrado que se estende de Lisboa a Coimbra, os colaboradores da empresa que se encontravam a gozar férias do ano passado vieram ajudar.

Encharcados e sujeitos ao vento gelado removeram entulho, telhados e árvores.

Outras empresas da mesma fileira da Marinha Grande e de Oliveira de Azeméis também disponibilizaram ajuda, alguns equipamentos e até espaço físico para guardar maquinaria de grande porte.

Este e outros apoios têm sido vitais até para a subcontratação de trabalhos de injecção de plásticos e para garantir que os prazos de clientes, como a Porsche ou a Mercedes, não falham.

Reconstruir à prova de tudo

Quanto ao futuro, ainda com os contactos e orçamentos com os seguros em modo de levantamento e negociação, o caminho será de reconstrução, mas com maior exigência, até porque uma vistoria detectou pilares fissurados que obrigam à demolição e reconstrução total da área de produção das duas empresas atingidas.

Estas serão reforçadas para resistir a ventos de magnitude extrema.

“Não vamos reconstruir igual, quando há a possibilidade de este fenómeno ser recorrente. Vai ser tudo muito mais forte!”, afirma João Faustino.

Tópicos: joão faustinoKristinmoldestj moldes
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