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“Se não mandarem a maquinaria pesada, vamos ter aqui uma Kristin florestal”

Jacinto Silva Duro Jacinto Silva Duro
05/03/26 08:03
em Abertura
“Se não mandarem a maquinaria pesada, vamos ter aqui uma Kristin florestal”
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“Tragam já para aqui toda a maquinaria pesada do ICNF [Instituto de Conservação da natureza e Florestas]!”

O grito de alerta, já solicitado à tutela, é do comandante sub-regional de Emergência e Protecção Civil de Leiria, Carlos Guerra, perante a possibilidade de incêndios muito violentos no Verão, que podem resultar na perda importante de bens e, pior, de vidas humanas.

“Se não mandarem tudo, vamos ter aqui uma Kristin florestal. Temos pouco tempo até à chegada da época de incêndios e não temos mão-de-obra para limpar os caminhos de acesso a áreas florestais. Isto é de preocupar e muito!” Carlos Guerra explica que o seu comando identificou duas medidas urgentes.

A primeira que a Unidade de Emergência de Proteção e Socorro (UEPS) – GNR verifique os postos de água na região e que, caso necessário, os sapadores os ponham em operacionais.

E a segunda e mais complexa, a retirada de milhares de toneladas de madeira que entopem os caminhos florestais usados pelos bombeiros para combater os incêndios.

Apenas na região de Leiria, calcula-se a existência de cinco a oito milhões de árvores derrubadas.

“Sei que os proprietários não terão capacidade ou mão-de-obra para o fazer, apesar de haver juntas de freguesias a dar prazos para essa limpeza.

O ICNF tem de trabalhar com as autarquias para fazer um levantamento no terreno e depois tem de conseguir juntar toda a gente; sapadores, forças armadas, madeireiros e proprietários para fazerem a limpeza”, entende.

Carlos Guerra propõe a transferência temporária de unidades do ICNF, de sapadores florestais e exército, baseadas no norte e no sul, regiões que não foram atingidas, para auxiliar.

“Temos apenas dois meses, Março e Abril, antes do início da temporada de fogos. Em Maio, se estiver calor, como tem acontecido noutros anos, teremos um problema grave em mãos.”

A madeira tombada pela tempestade do dia 28 de Janeiro cria uma continuidade horizontal, com combustível “violento”, no solo em praticamente todo o território atingido pelos ventos fortes.

“Temos caruma, onde ainda havia pinheiro, mas temos muita folha e casca de eucalipto, que são altamente inflamáveis à mais pequena faísca ou chama, a que acrescem os matos que vão crescer, ajudados pelas chuvas.”

Um Inverno com temperaturas muito superiores ao normal e abundante em precipitação, como este, permite, assim que a Primavera chegar, uma explosão no crescimento da vegetação fina, que serve como acendalha para a propagação das chamas.

O comandante adianta que não basta limpar apenas as vias e a beira dos terrenos e que até o próprio piso dos caminhos tem de ser reparado, uma vez que as raízes das grandes árvores o destruíram.

“Se não conseguirmos passar com os carros de combate, não se fará frente aos incêndios”, garante.

No próximo ano, os problemas deverão voltar, pois, sem árvores que segurem os terrenos, as chuvas deverão provocar aluimentos e novas inundações, ao levar as terras para os cursos de água que, assim, entupirão.

Cem metros em meio dia

Desde 28 de Janeiro, que Margarida Domingues já perdeu noção dos dias que passou com a motosserra nas mãos.

Funcionária da Junta de Freguesia de Meirinhas, concelho de Pombal, tem integrado as equipas da protecção civil local que, em conjunto com corporações de bombeiros vindas de outros pontos do País, limpa os caminhos florestais da freguesia.

Ao volante de uma carrinha emprestada por uma empresa local, vai mostrando o muito que já foi feito, mas que é apenas uma gota num mar de trabalho.

Percorre estradões que já estão reabertos, mas com espaço reduzido que ainda só permite a passagem de um veículo.

“Trabalhamos mais de dez horas por dia e estamos ainda a limpar os principais caminhos”, diz, lamentando que a equipa de bombeiros de Braga que tem estado na freguesia vá regressar a casa.

Com coração apertado, diz temer os incêndios que o Verão traz todos os anos, não sendo um cenário de probabilidade, mas de certeza.

“Não é ‘se o fogo vier’, mas ‘quando o fogo vier’.”

“Muitas vezes, demoramos meio-dia ou mais para limpar apenas 100 metros”, reforça, por seu turno, o presidente da junta, João Pimpão, também ele preocupado com o estado do território, alertando para uma situação que, conta, se repercute em toda a região afectada pelas tempestades de Janeiro e Fevereiro.

Mais a norte, no dia em que as principais vias de acesso de Pedrógão Grande foram desimpedidas, o presidente da câmara local ficou contente.

“Até limpámos o IC8 e a EN2”, conta João Marques.

Mas o alívio durou pouco. As imagens captadas por um drone da autarquia mostrou-lhe centenas de quilómetros de caminhos florestais intransitáveis.

Para já, a autarquia emitiu um edital a pedir aos proprietários que retirem as árvores dos caminhos, até 15 de Março.

Mas João Marques é realista.

Além do prejuízo causado pela queda de sobreiros, que poderá aumentar o preço da cortiça, e de pinheiros, que poderá baixar o valor da madeira de pinho a curto prazo, não haverá capacidade das fábricas de celulose e serrações de retirar e transformar toda a madeira.

Também o presidente da Câmara de Pombal, Pedro Pimpão, que é igualmente presidente da Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP), prevê um custo muito grande para as autarquias afectadas na limpeza do coberto vegetal derrubado na região.

Mosaico de terreno limpo e árvores mais espaçadas

O presidente do Município de Pedrogão Grande quer a criação de parques de madeira e fixação de preços justos para o produtor e João Pimpão, por seu turno, pede mais ajuda, que o Exército saia dos quartéis e venha servir a população neste momento de emergência.

O que defendem os industriais e os ambientalistas?

“Estamos muito preocupados. As pessoas não têm a noção dos milhares e milhares de hectares que foram destruídos por esta tempestade. São quilómetros e quilómetros de árvores partidas ou derrubadas”, diz o presidente da Associação das Indústrias de Madeira e Mobiliário de Portugal (AIMMP).

Vítor Poças vê na madeira caída uma ameaça ambiental e económica a prazo. Abandonada no solo, tornará o território mais vulnerável a incêndios e conduzirá a problemas fito-sanitários, além de representar uma perda de valor industrial significativa, “de milhares de milhões”.

Para fazer face a esta situação, em reunião com o secretário de Estado das Florestas, propôs um plano de acção urgente com duas medidas principais, por um lado, a criação de um aviso comunitário para financiar a aquisição de equipamentos de abate, corte e transporte das madeiras, e, por outro, o financiamento de parques de armazenamento para salvaguardar o valor económico desta matéria-prima.

“A palavra-chave é, acima de tudo ‘celeridade’, devido ao perigo dos incêndios e porque a madeira perderá valor, se não for recolhida”, afirma Poças.

Do lado dos ambientalistas, a Zero também tem dois planos principais. Um para o imediato e outro para o futuro.

“A prioridade é a limpeza. No entanto, trata-se de uma tarefa de tal forma extensa que necessita de um plano B, caso não se consiga concretizar a tempo da época de incêndios”, admite Francisco Ferreira.

Assim, no caso de um cenário, “bastante provável”, onde não será possível remover o coberto vegetal derrubado, o presidente da associação entende que será preciso criar descontinuidade territorial, para impedir que o fogo progrida.

A solução da Zero passa por criar um “mosaico” na paisagem, com quadrículas limpas, em vez de se executar a limpeza total, para que as chamas não progridam com tanta velocidade.

A segunda proposta é a criação de um plano de gestão florestal para Leiria e zonas limítrofes.

“Não nos podemos esquecer de planear o futuro”, afirma, explicando que, na área dos pinhais litorais, é necessário intercalar outras espécies autóctones, para tornar a floresta mais resistente a intempéries.

“Na área dos eucaliptais, no interior do território, é mesmo necessário criar maiores áreas de descontinuidade. Se, com o solo húmido, as árvores partem ou tombam, é necessário diminuir a densidade de povoamentos, para garantir que a oposição a ventos seja menor, quando estes eventos voltarem.”

Francisco Ferreira resume: “não se pode investir em comportamentos do passado, quanto temos situações completamente novas”.

Justiça e Ambiente

Todos em força para limpar floresta

A ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, em declarações à RTP, admitiu que “o Verão vai ser mau, com muitos incêndios, é um ciclo, cada um torna o outro muito pior”.

Para financiar a limpeza, revelou que serão utilizados fundos já alocados ao Ambiente no PRR, em articulação com a Agricultura, nas zonas de Leiria, Marinha Grande e Pombal.

“As próprias pessoas podem limpar, com dinheiro que vão receber, tipo voucher”, explicou.

Os proprietários podem limpar ou contratar quem o faça. O ICNF, os sapadores florestais e os vigilantes da natureza serão responsáveis pela logística e distribuição dos fundos.

Já a ministra da Justiça, Rita Alarcão Júdice, assinou um protocolo entre a Direcção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais e a Parques de Sintra para que reclusos participem, “para já”, na limpeza da mata de Sintra, também afectada pelos temporais.

 
Receberão o equivalente ao salário mínimo nacional mais subsídio de alimentação.
 
A governante quer replicar o modelo noutras zonas do País, e lembrou que há cerca de 200 reclusos em regime aberto que podem estar disponíveis para a tarefa.
 
A iniciativa enquadra-se numa nova legislação de política criminal recentemente aprovada que reforça programas de trabalho prisional em áreas como a manutenção florestal e a prevenção de riscos colectivos. 
Tópicos: aberturaárvores derrubadasdestruiçãoflorestaKristinmargarida dominguestempestade

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