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Home Saúde

Aumentam os casos de ansiedade ambiental entre os mais jovens

Ao Serviço de Psiquiatria do Hospital de Santo André, em Leiria, chegam cada vez mais casos de ansiedade, a equipa dirigida por Cláudio Laureano tenta apaziguar medos e encontrar caminhos seguros

Paula Sofia Luz Paula Sofia Luz
6 de Julho de 2026
em Saúde
Aumentam os casos de ansiedade  ambiental entre os mais jovens

(Foto: Freepik)

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Na noite de 28 de Janeiro, Ana Maria (chamemos-lhe assim, pois a família prefere o anonimato) acordou com o vento, como milhares de pessoas na região. A adolescente, de 16 anos, diagnosticada há dois anos com humor depressivo, ansiedade e PHDA (Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção) já lidava mal com eventos extremos, mas desde então agravou-se “o medo de sair de casa”, tal como conta a mãe, enfermeira numa estrutura residencial para idosos, e por isso “muitas noites a trabalhar, fora de casa”.

Naquela madrugada, não era o caso. “Estávamos todos em casa, menos o meu filho mais velho, que está na universidade. A minha preocupação maior foi ela, porque sei como fica quando as coisas lhe escapam do controlo”. O prédio onde moram, em Fátima, registou alguns danos, mas nada de vulto. Mas em frente uma árvore caiu so breo carro da família, danificando-o.

Ana Maria demorou até entrar no carro de novo: “ela não ficou só com medo do vento – que já tinha – ou do pedraço ou dos dias de mui to calor, que a fazem ter pânico de incêndios. Ficou mesmo com medo de andar de carro, sobretudo em zonas com árvores”. Nos dias seguintes, a família foi contactada pela equipa de Pedopsiquiatra da ULS Leiria, que habitualmente acompanha a adolescente em consulta. E antecipada uma consulta. “A médica acabou por não mexer na medicação, mas recomendou psicoterapia. É o que nos tem ajudado”, conta esta mãe.

O psiquiatra Cláudio Laureano – que dirige o serviço de Psiquiatria da Unidade Local de Saúde de Leiria – está bem familiarizado com o domínio da ansiedade climática, nos últimos anos, um termo que a activista Greta Tumberg conseguiu introduzir no léxico da Saúde  Mental. “Embora o termo ansiedade climática não seja ainda reconhecido como uma doença, entra na perturbação da ansiedade generalizada, tal como a ansiedade social ou a fobia social, que não é ainda considerado pela classe, e pelos manuais internacionais, como uma doença”, explica o médico, que acredita vir a assistir em breve a alterações nesse domínio: “acredito que muito provavelmente vi rá a ser considerado nos manuais, nas próximas revisões que forem feitas”.

Cláudio Laureano tem assistido a um aumento crescente da “ansiedade ambiental”, considerada “uma reacção normal do indivíduo perante determinados eventos relacionados com o ambiente, como aconteceu na nossa zona, com a tempestade Kristin”. Mas pensa no que ouve no consultório e noutros eventos que marcam negativamen te as pessoas, como inundações ou incêndios.

“Há pessoas que sofrem muito com esse tipo de preocupação, no fundo é uma preocupação crónica com as questões climáticas, e é nisso que consiste a ansiedade – uma preocupação e um medo per manente, neste caso relacionado com as alterações climáticas”. “A preocupação é constante; o que está a ser feito para as minimizar”.

O médico notou um aumento dos casos nas consultas que se seguiram à tempestade e acredita que, “quando passarmos ao Inverno, vamos voltar a notar esses medos”, tanto mais que “essas coisas de moram algum tempo a processar, e haverá muito mais situações que vão aparecer”. Este psiquiatra usa a experiência para sublinhar que “esse tipo de ansiedade é muito mais frequente nos jovens.

“Embora seja apenas um dado empírico, o que observo na minha consulta é que as reacções de medo e ansiedade em relação àquilo que aconteceu naquela noite de 28 de Janeiro, e a possíveis novos episódios, de uma forma geral os idosos até têm alguma resiliência e lidam melhor com isso do que os jovens. Esses descrevem mais frequentemente os  episódios de insónia, de ansie dade, medo de voltar a repetir-se uma situação daquelas. Mas é no adulto, no adulto não geriátrico, digamos assim, que eu noto o maior impacto desta situação”, afirma, certo de que tal se ficará a dever “talvez ao facto de já terem passa do outras situações que nós ainda não vivemos, ou porque já tinham ouvido os avós deles dizer que há 100 anos atrás, também aconteceu algo semelhante”.

Cláudio Laureano cita até um artigo recente, sobre “ansiedade ecológica” e “do impacto que ela vai ter nestas novas gerações”. “Por isso estou convencido que prova velmente nas próximas revisões dos manuais de psiquiatria a an siedade ambiental vai lá constar”.

Tópicos: ansiedade ambientaljovenspsiquiatriasaúde mental
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