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O eclipse perfeito

O diurno e o noturno amalgamaramse… Parecia que o Sol «estava com a Lua», não que tivesse o humor revirado, mas a cabeça, essa, estava

Florbela Oliveira, Professora e escritora Florbela Oliveira, Professora e escritora
20 de Agosto de 2026
em Opinião
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Florbela Oliveira, Professora e escritora
Florbela Oliveira, Professora e escritora20 de Agosto de 2026

Houve um dia em que a Lua tapou o Sol, escondeu-o, atirou-o para segundo plano como se o tivesse expulsado do céu. Houve um dia em que a estrela quente e radiante de luz clara e viva, por causa disso, se baralhou e baralhou o mundo todo.

Dia e noite confundiram-se. Luz e trevas misturaram-se. O diurno e o noturno amalgamaram-se… Parecia que o Sol «estava com a Lua», não que tivesse o humor revirado, mas a cabeça, essa, estava.

Engraçado! Por que não dizer-se que «se está com o Sol»? Como sempre, somos impostores de nós próprios e do mundo e dizemos sempre «Hoje estás com a Lua!». Não seria bem melhor vermos tudo pela positiva, e dizer «Uau, hoje estás com o Sol!» e tentarmos nunca aludir ao lado lunar? Bem, mas isto não vem ao caso. Continuando.

Naquele dia, no dia em que se diz dar-se o eclipse, o Sol apanhou com a Lua bem pela frente e o mundo agitou-se, confundiu-se e foi a primeiríssima vez que o dia viveu em simultâneo com a noite. Foi a primeira vez que dois ambientes antagónicos se cruzaram e, por estranho que pareça, se amaram e se felicitaram.

As pessoas coexistiram, ainda que, por breves momentos, com os animais noturnos: maravilharam-se com a beleza da coruja, com a luz do pirilampo, com o eco do morcego, com o uivar do lobo, com o coaxar da rã.

E as estrelas, no céu noturno, maravilharam-se com o suceder do céu azul, com as sombras provocadas pela luz do Sol, deitaram-se na relva fresca e contemplaram horizontes e o arco-íris e as crianças a correr e as ruas a serpentearem-se e as roupas estendidas ao vento e acharam piada à pressa de seres em completa corrida para cumprir horários…

Nesse dia em que a Natureza permitiu que o Sol e a Lua coincidissem no céu, as borboletas, bailando pelo ar, aproveitaram para visitar o vagalume, o cão vadio, o escorpião negro, a aranha de teias enleadas, a raposa, o mocho, os insetos, as criaturas da noite, os sonhos das crianças que adormeceram porque a noite tinha caído tão depressa que, de imediato, se entregaram ao sono.

Nesse dia em que a Natureza permitiu que o Sol e a Lua coincidissem no céu, o padeiro avançou, madrugada fora, para preparar o dia. Os homens a que chamamos, erradamente, de homens do lixo, porque, afinal, Homens do lixo somos nós que o fazemos, limparam o mundo para preparar o dia. Nesse dia em que o Sol e a Lua coincidiram no céu, a vida foi, surpreendentemente, calma, doce, gentil, equilibrada e amada.

O mistério da noite, da melancolia, do pecado, do silêncio e da memória foi desassossegado pela ação, pelo encontro, pela construção, pela descoberta, pela liberdade.

E, no fim, estes seres celestes, condenados a viver desencontrados, entremearam-se, ali, um no outro, abraçaram-se e despediram-se prometendo encontrar-se quando a Natureza o ditasse. E, no que toca à Natureza, não há quem a controle.

Felizmente, diria eu, em tantas vezes; infelizmente, em tantas outras, bem vistas as coisas, a verdade é que é bom ser Nela que nos é permitido viver as nossas vidas.

Tópicos: Florbela Oliveiraopinião
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