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Home Crítica

Cinema e TV | Isto é uma coisa a ver: O Convite

O melhor do filme é o texto. Os diálogos são rápidos, sarcásticos, profundos e divertidos. Os temas vão-se sucedendo, centrando-se na questão sexual, acabando por confrontar o espetador com os limites de uma relação monogâmica

Elsa Margarida Rodrigues, professora e escritora Elsa Margarida Rodrigues, professora e escritora
21 de Agosto de 2026
em Crítica
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Elsa Margarida Rodrigues, professora e escritora
Elsa Margarida Rodrigues, professora e escritora21 de Agosto de 2026

O Convite (The Invite) é um filme de Olivia Wilde, a realizadora do distópico Não Te Preocupes, Querida, de 2022, também este sobre relações conjugais, tema que é imediatamente assumido em O Convite quando, depois das imagens iniciais e antes do genérico, com o som de cena a correr em fundo, aparece, em letras brancas sobre um fundo negro, a frase de Oscar Wilde “esta é a razão pela qual nunca devemos casar”.

Olivia Wilde omite intencionalmente a primeira parte da citação, em que é apresentada a tal razão, que o filme acabará por fornecer: porque devemos estar sempre apaixonados. Os Wilde (Olivia e Oscar) assumem que o casamento é um amontoado de pequenos rancores, frustrações, ressentimentos e animosidades que transformam a vida numa prisão e o quotidiano num campo de batalha em que a intimidade dá lugar à indiferença e o amor se reduz a uma vaga memória de dias felizes.

Para o ilustrar, Olivia mostra o contraste entre o casamento (longo) de Angela (protagonizada pela própria realizadora) e Joe (Seth Rogen) e a (curta) relação apaixonada de Piña (Penélope Cruz) e Hawk (Edward Norton), no primeiro jantar entre os dois casais que habitam andares confinantes.

Por se passar quase exclusivamente num único décor e em tempo real, o filme aproxima-se de um registo teatral, a lembrar o clássico Quem Tem Medo de Virginia Wolf?, de Mike Nichols, ou o mais recente Malcom&Marie, de Sam Levinson. Mas, subtilmente, Olivia Wilde não nos deixa esquecer que é de cinema que se trata. Planos, enquadramentos, fotografia e banda sonora (criada por Devoté Hynes) ajustam-se à velocidade dos diálogos, à tensão das personagens, à textura da relação que se vai estabelecendo entre os membros deste quarteto improvável: um músico falhado, uma dona de casa frustrada para quem a decoração é a única forma de realização, uma psicoterapeuta sexóloga, e um ex-bombeiro massagista.

Mas o melhor do filme é o texto (que ganha vida com o trabalho dos atores que o interpretam). Apesar de se basear na comédia espanhola Sentimental (2020), de Cesc Gay, a adaptação do argumento feita por Will McCormack e Rashida Jones faz com que O Convite seja mais do que um mero remake. Os diálogos são rápidos, sarcásticos, profundos e divertidos. Os temas vão-se sucedendo, centrando-se na questão sexual, acabando por confrontar o espetador com os limites de uma relação monogâmica. Pelo meio, vai-se manifestando a complexidade de que todos somos feitos: as frustações, os anseios, os escapes, as raivas, os desejos, as tentações, os pequenos pecados, tudo revelado em confidências ou ataques que colocam em jogo as relações entre homens, entre mulheres e entre homens e mulheres, e tudo o que elas podem envolver, da inveja ou ciúme à empatia e compersão (termo introduzido pela sexóloga Piña para designar o prazer que podemos retirar ao ver o prazer do parceiro, ainda que seja nos braços de outra pessoa).

O final do filme encontra-se escondido no seu início, mas a mensagem de Wilde, tal como em Não Te Preocupes, Querida, parece ser simples: é preciso reinventar o amor heterossexual monogâmico.

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