Uma criança que pratica uma actividade desportiva além das aulas de Educação Física dorme melhor, come melhor e sabe mais sobre saúde.
Esta foi uma das mais interessantes conclusões de um estudo conduzido pela Universidade de Leiria e Oeste (ULO) sobre as crianças do concelho de Leiria.
“Estávamos à espera de que o desporto fosse importante, mas não que fosse tão transversal”, admite Maria João Batalha, investigadora no projecto ATIVA+Saúde.
No mundo académico, abundam referências que ligam os hábitos de uma criança a questões como rendimento da família ou a escolaridade dos progenitores.
Mas, nesta investigação, concluiu-se que também a prática desportiva fora do horário curricular tem um grande impacto no sono, na alimentação e no conhecimento que as crianças têm do próprio corpo.
A investigação do ATIVA+Saúde é promovida pelo centro de investigação ciTechCare, da ULO, em parceria com a Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade NOVA de Lisboa e a Câmara Municipal de Leiria, e é financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia.
Arrancou em Março de 2024 e termina em Março de 2028.
Os dados foram recolhidos entre Março e Junho do ano passado, junto de 549 crianças dos dez aos 12 anos, num estudo pioneiro em Portugal que mede literacia em saúde, literacia alimentar e nutricional, cruzadas com medições de peso e altura, nível de adesão ao padrão alimentar mediterrânico e ainda existência fatores relacionados com o sono.
Foram intencionalmente escolhidas escolas de três agrupamentos escolares para retratar três realidades no concelho.
O Agrupamento de Escolas Domingos Sequeira representa o meio urbano e é a maior fatia da amostra, com 47,9%.
O dos Marrazes ilustra o meio periurbano, com 36,2%, e o das Colmeias, o meio rural, com 15,8%.
Da amostra, constam 51,7% de rapazes, 48,3% de raparigas e espelha a composição actual das salas de aula, com 80,5% de nacionalidade portuguesa, 14,6% brasileira e 4,9% de outras origens, entre as quais ucraniana, angolana, moçambicana, nepalesa e uzbeque.
Mais novos têm comportamentos mais saudáveis
A investigação concluiu que praticar desporto fora da escola quase triplica as hipóteses de uma criança ter literacia em saúde adequada. Ainda assim, quase quatro em cada dez (39,6%) não praticam.
Além disso, o género também é determinante, uma vez que os rapazes têm 54% menos probabilidade do que as raparigas de ter literacia em saúde adequada e, menos 86,2% na literacia alimentar.
Entre o quinto e o sexto anos, aparentemente, os hábitos também pioram. “As crianças mais novas acabam por ter hábitos e comportamentos mais saudáveis do que as mais velhas”, explica Maria João Batalha.
Para tornar os dados legíveis, as investigadoras desenharam quatro clusters de perfil, com nomes e idades. “Tiago” tem 10 anos e é o perfil óptimo, com bons resultados em tudo. Anda no 5.º ano, não tem ecrãs no quarto à noite e pratica desporto fora da escola.
“Pedro” tem 12 e está no extremo oposto, o perfil vulnerável, com literacia baixa, má alimentação e sono perturbado. Não treina fora de ambiente escolar.
Entre os dois ficam “Maria”, próxima da média, e “Inês”, que come bem, mas dorme mal.
As investigadoras pretendem agora trabalhar com alunos, famílias, professores, profissionais de saúde, como nutricionistas, fisioterapeutas, médicos e enfermeiros e designers para desenhar soluções à medida de cada escola.
“Estamos numa fase onde já não queremos recolher dados, queremos é ajudar estas crianças e estas famílias a melhorar estes estilos de vida”, resume Sara Simões Dias, professora coordenadora.
O produto final poderá assumir a forma de um jogo educativo, a aplicar de regresso às escolas, para combater o uso de dispositivos à noite e elevar a literacia em saúde e alimentar.
A tese de Maria João Batalha tem ainda mais ano e meio pela frente, findo o qual, a intenção é continuar o seu desenvolvimento e estudo.
Marrazes com pior adesão à dieta mediterrânea
No conjunto do concelho, 57,9% das crianças aderem fortemente ao padrão alimentar mediterrânico.
Marrazes, o meio periurbano, tem a pior adesão do concelho, com 51,7%, contra 61,4% no urbano e 61% no rural.
Também é ali que há mais crianças com literacia em saúde problemática, 17,7% contra os 9,1% das outras duas zonas.
Há menos literacia alimentar, 28,6% contra 39,4% no urbano, e pior sono.
Só um terço das crianças estudadas, 34,7%, atinge patamares elevados de literacia alimentar.
E o estudo mostra que essa literacia pode estar ligada com o resto.
Quem sabe mais sobre alimentação adere mais à dieta mediterrânica, pratica mais desporto fora da escola e usa menos ecrãs à noite. O uso à noite de ecrãs não estava previsto no desenho original da investigação.
“Quando fomos à escola, os professores pediram também para recolhermos dados sobre o uso de dispositivos digitais à noite”, conta Maria João Batalha.
O tema acabou por ser um dos que definem os perfis.










