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Cinema e TV | Isto é uma coisa a ver: Na Companhia das Estrelas (The Dog Stars)

Elsa Margarida Rodrigues, professora e escritora Elsa Margarida Rodrigues, professora e escritora
18/09/26 05:09
em Opinião
Cinema e TV | Isto é uma coisa a ver: Na Companhia das Estrelas (The Dog Stars)
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Elsa Margarida Rodrigues, professora e escritora

Na Companhia das Estrelas é o mais recente filme de Ridley Scott, com Jacob Elordi, Margaret Qualley, Josh Brolin e Guy Pearce como protagonistas. É um regresso à ficção científica, desta vez num mundo pós-apocalíptico, em 2035, depois de a humanidade ter sido devastada por um vírus.

O facto de ser baseado no romance homónimo de Peter Heller, publicado já em 2012, faz com que não se trate de uma referência à Covid, nem de um alerta a qualquer situação futura de pandemia, até porque as causas ou efeitos do vírus ou a tentativa para uma possível cura não têm qualquer relevância para o decorrer da narrativa. Resta-lhe, por isso, ser o retrato de um mundo pós-apocalíptico, à imagem do que foi feito por tantos outros filmes e séries, de Mad Max a Fallout, passando por The Last of Us ou as onze temporadas de The Walking Dead.

Como em todos os filmes deste subgénero, o mundo depois do apocalipse divide-se em bons (os heróis que o filme ou série acompanha) e maus. Mas os maus tendem a ser de duas categorias: os que que não têm outra hipótese senão sê-lo (como os zombies ou aqueles que parecem ficar desprovidos de qualquer inteligência e voltam a uma condição selvagem), e os que, podendo organizar comunidades sustentáveis, escolhem fazê-lo de forma ditatorial e cruel. Estes são os verdadeiros vilões deste tipo de filmes ou séries, de que é exemplo o memorável Negan (Jeffrey Dean Morgan) em The Walking Dead, função que no filme de Ridley Scott cabe a Darlene (Allison Janney).

Os vilões, de uma forma ou de outra, com maior ou menos dificuldade, acabam por ser derrotados e o bem, ainda que sempre sob perigo, acaba por triunfar no final. Quanto a esta estrutura narrativa, não há nada de novo em Na Companhia das Estrelas. Hig (Jacob Elordi) e Bangley (Josh Brolin) são os heróis, a quem se juntam mais tarde Cima (Margaret Qualley) e Pops (Guy Pearce), todos eles sobreviventes atormentados por aquilo que perderam.

Os maus mais básicos são os saqueadores, bandos selvagens que atacam violentamente fazendo lembrar os índios dos velhos western. Os vilões são representados por Grand Juction, uma comunidade militarizada, com uma estética retro, fazendo lembrar um hotel de luxo dos anos 50, que muito rapidamente (mesmo muito rapidamente, sem qualquer exploração anterior ou posterior) se revela uma sociedade distópica, em que o valor das pessoas é calculado em função da sua utilidade, e que, sem dificuldade, é completamente destruída pelos heróis.

Ao contrário dos grandes filmes de ficção científica de Ridley Scott, entre os quais se contam Alien, Blade Runner, Gladiador I e II, Prometheus e Alien: Convenant, este não é um filme de ação. Não tem uma narrativa complexa, não tem efeitos especiais extraordinários, não implica qualquer reflexão posterior. É um filme simples, onde tudo parece acontecer sem suspense nem surpresa. É (como em A Odisseia, ou em qualquer filme sobre a jornada do herói) a viagem de um homem que quer regressar a casa, num mundo onde já não existe lar para onde regressar, e que, por isso percorre os céus a bordo do seu Cessna de 1956.

No fim, acaba por descobrir que a esperança esteve sempre na simplicidade rural da vida em comunidade. E, sem qualquer outra ambição ou leitura mais complexa, o filme acaba com um beijo romântico ao luar, sob as constelações Jasper (o cão que morre numa das cenas iniciais, e que dá o nome ao filme) e Elvis, num futuro em que tudo pode ser reinventado, até as estrelas. É, como os críticos apontam, um filme despretensioso, aquém das expectativas que a vasta filmografia de Ridley Scott faria esperar, o que, sendo o seu maior defeito, é também, talvez, a sua maior virtude.

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