Ajudou a fundar o Speak, a Associação Fazer Avançar, o Rotaract de Leiria, passou pela direcção do Orfeão e, desde 2018, preside à ***Asteriscos. O que o move no associativismo?
Encaro o associativismo como um veículo que nos permite fazer intervenção pública e ajudar a corrigir problemas. Em vez de nos queixarmos ou pedirmos a outros que o façam, agimos.
Qual dos projectos lhe permitiu concretizar melhor o sonho de poder “aplicar soluções que melhorem a vida dos cidadãos”?
Talvez o Speak e os Lobos. O Speak pelo momento em que foi criado e por dar uma resposta muito necessária. Era um projecto, sobretudo de integração de migrantes na sociedade, através do ensino de línguas e culturas. Mas o ensino era uma desculpa para que as pessoas estivessem juntas e conseguissem ultrapassar as suas diferenças e celebrá-las. O mais relevante do Speak acontecia fora das aulas, permitindo que as pessoas se conhecessem e, dessa forma, se inter-ajudassem.
Apontou também os Lobos, da ***Astericos, como um projecto com capacidade transformadora. De que forma?
Mais do que um clube desportivo, os Lobos procuram ser um espaço de formação de cidadãos através do desporto. Em todas as disciplinas, queremos que os treinadores percebam que o mais importante são os valores que passamos às crianças. Queremos, acima de tudo, que elas saibam brincar. Seguimos a pedagogia do nosso director pedagógico, o professor Carlos Neto: primeiro brinca-se e só depois se aprende o desporto.
O clube é o projecto da ***Asteriscos que mais tem crescido. Esse incremento vai implicar reforço de instalações?
Temos agora, com a introdução do karaté, oito modalidades e em três anos passámos de 50 para cerca de 220 atletas. Estamos a preparar o clube para receber mais pessoas, com a mudança de instalações, para um espaço maior no Vale Sepal. É um desafio, porque o investimento é muito grande. Temos sempre o receio de dar um passo errado, mas estas decisões têm de ser tomadas.
Dentro dos Lobos há o Inclujitsu, que promove o desporto inclusivo. É um projecto especial para a ***Asteriscos?
Esta componente de apoio à deficiência é super-relevante. Estamos a apoiar cerca de 60 pessoas, de todas as instituições do concelho de Leiria que trabalham na área da deficiência. E fazêmo-lo com uma abordagem académica. Encomendámos um estudo a uma consultora para percebermos o impacto. E os resultados, que iremos apresentar nos próximos meses, são incríveis.
No plano político conta oito anos de experiência autárquica, um mandato em Leiria, como adjunto da vereadora da Educação, e outro na Marinha Grande, como adjunto da presidente da câmara. O que foi mais marcante?
De certa forma, foi a uma concretização de um sonho de criança. Desde pequeno que dizia que queria ter um lugar político relevante. Curiosamente, o meu filho, de cinco anos, já diz que quer ser presidente da câmara (risos). Sempre tive muita vontade de ter poder para mudar as coisas que via acontecer à minha volta. O associativismo também foi uma forma de fazer isso. Em 2013, fui convidado por Raul Castro para fazer a campanha e depois a integrar os quadros de nomeação política na Câmara de Leiria. Fiquei muito feliz porque achava que ia conseguir pôr em prática muitas das coisas que sempre quis fazer com impacto na vida das pessoas.
E conseguiu?
Percebi depois que essa era uma visão romanceada. As câmaras têm ainda muita carga burocrática. Mas fizemos coisas muito boas tanto em Leiria como na Marinha Grande. Curiosamente, o corpo técnico das duas câmaras era muito parecido e os problemas muito idênticos.
Essa carga burocrática foi surpresa?
Em Leiria sim, porque era a minha primeira experiência autárquica. Quando fui para a Câmara da Marinha, já sabia bem com o que contava. Um dos projectos mais emblemáticas em que tive o prazer de participar, que nos ocupou todo o mandato, nada tem de sexy, mas é super-important. Refiro-me à conduta adutora entre o reservatório do Alto dos Picotes e a Marinha Grande. Estava sempre a rebentar. Foi um processo gigantesco, que só terminou no mandato seguinte, que beneficiou brutalmente a vida das pessoas. Na Marinha Grande, fizemos outra coisa muito importante, o aumento do saneamento básico, que também está enterrado e que ninguém vê. Quando se faz obra que não é visível, as pessoas tendem a não valorizar, mesmo que seja muito importante para elas.
Vai ter a oportunidade de participar noutra decisão que irá impactar a vida das pessoas. Refiro-me ao plano de mobilidade de Leiria, que deverá ser votado ainda este ano na Assembleia Municipal, da qual faz parte. Como vê a contestação que o processo tem gerado?
É importante que haja consultas públicas e que as entidades se predisponham a fazer alterações, caso existam contributos das pessoas. Foi isso que a câmara fez. Há-de agora adaptar o plano em função desses contributos. A contestação já aconteceu há 10 anos, no tempo de Raul Castro, que, erradamente, recuou.
Pode acontecer o mesmo agora? A câmara já recuou numa série de propostas do plano.
A câmara não pode enfiar novamente o plano de mobilidade na gaveta. Seria um erro terrível. O plano pode sofrer alterações. Há coisas que faz sentido mudar e melhorar. Sou um enorme fã da pedonalização e de retirar espaço aos automóveis na via pública. Há quem diga que sou demasiado. O que me interessa é um centro da cidade que possa ser fruído pelas pessoas e não pelos carros. Não é por haver mais carros a circular na Avenida Heróis de Angola que as lojas vendem mais. É preciso haver parques de estacionamento, para as pessoas deixarem o carro fora da cidade, e vias pedonais e ciclovias, para virem para o centro. Leiria ainda não é uma cidade agradável para andar a pé, de bicicleta ou com um carrinho de bebé.
Acredita que, com este plano, é possível inverter essa realidade?
Acredito. Há coisas a corrigir, mas é muito importante termos um plano que faça de Leiria uma cidade feita para as pessoas e não para os carros. O centro da cidade não pode, de todo, ser uma via de distribuição de trânsito. Não podemos estar na Marquês de Pombal e ir de carro para o estádio pelo centro da cidade. É o caminho mais perto, mas não é um caminho que os carros devessem poder fazer. O centro da cidade tem de ser o sítio da fruição das famílias. E quando isso acontecer, os negócios vão-se adaptar àquilo que o centro deve ser.
Em 2017, disse à rubrica Almanaque do JORNAL DE LEIRIA que a política era a sua “paixão”. Passados estes anos, a paixão ainda mantém a chama acesa ou já refreou?
A minha mulher diz que sou maluco, porque continuo a gostar da política depois das coisas que já aconteceram. A política continua a ser uma das minhas maiores paixões. Tenho outras, naturalmente. O associativismo é uma paixão muito grande, como é a gestão desportiva e a minha carreira profissional na indústria da tecnologia.
O que mais o desiludiu na política?
Sempre achei que a nossa capacidade, a minha e a de cada um, seria muito mais tida em conta do que aquilo que é na verdade. Pensava que bastava a vontade de transformar e de melhorar a vida dos cidadãos, de ajudar as pessoas. Depois, descobri que não é assim.
No momento da escolha para determinados lugares as ligações contam mais do que as capacidades?
Há jogos de interesses, que não são exclusivos da política. São típicos da natureza humana.
Num artigo de opinião publicado, há um ano, no Público, escreveu que “a esquerda é uma casa a arder”. Este estado da esquerda tem riscos para a democracia?
Tem um risco enorme. O estado a que a esquerda chegou é, em grande medida, causado pelas redes sociais. A polarização ideológica que as redes sociais nos trouxeram, pulverizou o centro ideológico. Parece que só temos pessoas de extrema-direita ou de extrema-esquerda. A esquerda é a casa da tolerância no que toca aos direitos, liberdades e garantias. Não que a direita seja a casa da intolerância. A esquerda desviou- se daquele que deve ser o foco principal, a economia e a protecção do trabalhador. Não vejo ninguém na esquerda preocupado – também não vejo ninguém na direita – com o que vai acontecer aos trabalhadores com a IA [inteligência artificial]. A esquerda tem, naturalmente, de se preocupar com causas que comummente defende, como a identidade de género ou os direitos de LGBT, que são causas muito válidas, mas não pode esquecer a economia. Tem de falar muito mais para quem tem necessidade de ser protegido na economia, de acabar com o sufoco da classe média.
Trabalha na área da tecnologia. Como vê os alertas que surgiram nas últimas semanas, incluindo de investigadores e líderes das maiores empresas mundiais da área, sobre os riscos imprevisíveis da IA?
Acho muito pouco provável um cenário em que a IA nos vai extinguir. Vejo um cenário muito mais normal, mas também terrível. Se a IA tornar obsoletos os nossos empregos, para que modelo económico avançamos? Não pode ser o actual, porque, se não temos emprego, não temos salário. Se não temos salário, como é que compramos as coisas? Tem de emergir um novo modelo económico que, curiosamente, até parece muito mais comunista do que capitalista, se falarmos, por exemplo, na solução do rendimento universal básico, em que toda a gente recebe um valor do Estado para, essencialmente, não fazer nada. Seria no mínimo irónico que o sistema capitalista, na sua mais avançada fase, nos empurrasse para o comunismo. Marx falava exactamente disso, de o sistema capitalista chegar a um ponto – obviamente não estava a pensar na inteligência artificial – , que tornaria possível o modelo comunista e o rendimento básico universal.
Mas com que dinheiro?
Elon Musk diz que, como os bens vão passar a ser muito mais baratos na produção, vão descer de valor. Ou seja, o dinheiro que os Estados precisam para dar às pessoas para que os possam comprar não será tão alto. Isto é partir do princípio que os donos das empresas, como não têm de gastar dinheiro com salários, porque é a IA a fazer, farão repercutir isso no preço final. Mas não é linear que assim seja. Se calhar, venderão pelo mesmo valor para ganhar ainda mais dinheiro. Não me parece que o plano do rendimento básico universal possa funcionar, a não ser que se taxem brutalmente as empresas da IA, de forma a que os Estados possam distribuir pelas pessoas.
E o que é que acontece até chegarmos a esse momento?
Essa é a questão. Vai haver muita gente a passar desgraças, com a ironia máxima de serem os mais formados os primeiros a ficarem numa situação má. No imediato, a IA não vai automatizar e tornar obsoletos os trabalhos dos canalizadores, dos electricistas, etc. A robótica ainda está a uns anos de distância, mas IA já está cá e a tirar empregos. O que vamos fazer quando, dentro de poucos anos, tivermos 30 ou 40% de desemprego?













