
A investigação científica é um processo sistemático que parte de um problema/ questão e procura descrever e compreender a realidade com base em evidência, produzir conhecimento fundamentado, traduzindo-o em propostas úteis para os territórios e para as organizações. Com esse propósito, desenvolvi, com a colega Eunice Duarte, uma investigação sobre os Caminhos de Fátima e a sua relação com o desenvolvimento local.
O trabalho incluiu revisão da literatura, realização de um percurso, observação do território e auscultação de intervenientes na gestão: Turismo de Portugal, autarcas, Associação Caminhos de Fátima, Centro Nacional de Cultura e associações de peregrinos.
O estudo, publicado em 2023 no International Journal of Religious Tourism and Pilgrimage, revista indexada na Scopus, identificou um problema central: a inexistência de um verdadeiro modelo integrado de gestão dos Caminhos de Fátima.
Havia iniciativas, mas faltava uma estrutura capaz de articular municípios, entidades do turismo, associações e parceiros numa estratégia comum.
Não ficámos pelo problema. Apresentámos as conclusões ao Centro Nacional de Cultura, ao Turismo de Portugal e à Associação Caminhos de Fátima e propusemos um novo modelo de gestão, assente numa maior coordenação entre entidades, numa visão estratégica partilhada e numa intervenção articulada sobre percursos e territórios.
É neste contexto que assume significado o recente anúncio de um acordo entre a Associação Caminhos de Fátima, o Centro Nacional de Cultura, o Turismo de Portugal e as entidades regionais de turismo, que prevê uma atuação mais coordenada na gestão dos Caminhos, qualificação e monitorização dos percursos, melhoria da experiência de quem os percorre, valorização do património e maior envolvimento dos agentes locais.
Enquanto investigadores, verificamos com satisfação que problemas identificados e soluções propostas encontram hoje expressão em medidas concretas. Isso mostra como a investigação académica pode ter utilidade pública e contribuir para transformar práticas.
O desafio está longe de estar concluído. Os Caminhos de Fátima devem ser muito mais do que percursos sinalizados até ao Santuário e assumirem-se como uma rede territorial de peregrinação, cultura, património e desenvolvimento local, capaz de gerar valor e distribuir benefícios pelas comunidades atravessadas.
Para isso, é essencial uma articulação mais estreita entre todos os intervenientes.
Num produto que atravessa tantos territórios e envolve tantas instituições, persistem decisões fragmentadas e níveis de cooperação insuficientes. A investigação identificou o problema e apontou caminhos possíveis.
Algumas respostas começam agora a surgir, dando forma a um novo impulso que poderá conduzir a um modelo de gestão integrado, estável e centrado em quem percorre os Caminhos e nos territórios que lhes dão vida.







