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O Lado Lunar | Jogo perigoso

A matemática dos pobres pode ser um excelente negócio para quem a explora. Discutir imigração e habitação exige olhar também para esta realidade. Para quem arrenda, para quem subarrenda, para quem fiscaliza e para quem fecha os olhos. Exige perceber como se transforma uma necessidade elementar num negócio assente na vulnerabilidade.

Fernando Ribeiro, músico Fernando Ribeiro, músico
25 de Outubro de 2026
em Opinião
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Fernando Ribeiro, músico
Fernando Ribeiro, músico25 de Outubro de 2026

A famosa — ou infame — crise migratória europeia ganhou uma nova dimensão com a guerra civil na Síria, no rescaldo de uma Primavera Árabe que nem sempre fez jus ao nome.

A 31 de agosto de 2015, Angela Merkel, com uma humana, demasiado humana “batata quente” nas mãos, declarou: “Wir schaffen das”. Vamos conseguir.

Corajosa para uns, desastrosa para outros, a frase tornou-se o símbolo de uma Alemanha que recebeu refugiados com mantas, comida e abraços.

O país tinha experiência de acolhimento e uma vasta comunidade de origem turca. 

Assumiu um papel decisivo numa altura em que países nas principais rotas de chegada, como a Grécia, a Itália e a Turquia, enfrentavam enormes pressões. A situação era verdadeiramente dramática.

A Europa apresentava-se como terra de oportunidades. 

Mas estes movimentos colocavam desafios diferentes dos de outros fluxos migratórios, como o dos portugueses que partiram para França. 

Exigiam respostas à altura: acolhimento, integração, habitação, serviços públicos e combate à exploração.

Foi aí que a promessa começou a perder substância. 

À chegada de pessoas nem sempre correspondeu a preparação necessária para as receber. E aquilo que exigia planeamento tornou-se matéria de disputa partidária.

Chegámos a uma polarização que se alimenta a si própria. 

À direita e à esquerda, demasiados responsáveis preferem deitar gasolina no fogo a reconhecer falhas de decisão e execução. 

Pelo meio, acumulam-se tensões sociais, dificuldades no acesso à saúde, à habitação e à educação, episódios de violência e respostas policiais que também têm de ser escrutinadas. 

Quem vive pior acaba a disputar com quem vive igualmente mal aquilo que devia estar ao alcance de todos.

Um exemplo são as declarações de Leitão Amaro que associam o aumento da imigração ao problema da habitação. 

A questão merece ser discutida. O problema começa quando a associação serve de explicação e dispensa o resto da conversa.

Falta, por exemplo, olhar para as chamadas “camas quentes”: espaços sobrelotados, por vezes ocupados por turnos, onde a precariedade de uns se transforma no rendimento de outros. Faça-se uma conta simples: numa casa arrendada por 2300 euros, 23 pessoas a pagar 100 euros cada uma cobrem a renda. O valor incomportável para uma família torna-se possível à custa da sobrelotação e da perda de condições de vida.

A matemática dos pobres pode ser um excelente negócio para quem a explora.

Discutir imigração e habitação exige olhar também para esta realidade. 

Para quem arrenda, para quem subarrenda, para quem fiscaliza e para quem fecha os olhos. 

Exige perceber como se transforma uma necessidade elementar num negócio assente na vulnerabilidade.

Mas a discussão política raramente se demora nestas histórias de carne e osso. 

Prefere a frase que cabe num título, circula nas redes e rende votos. Dividir para conquistar continua a dar resultado.

Mesmo quando se reconhecem a falta de construção e outros fatores, a mensagem que fica pode ser outra: há gente a mais, e essa gente veio de fora. 

A insuficiência da oferta, os atrasos das respostas públicas, os incentivos do mercado e a exploração habitacional passam para segundo plano.

O aumento da procura pode pressionar a habitação. Não basta, porém, para explicar a crise, muito menos para justificar que se transforme quem procura casa no culpado por não a haver.

É nesta procura incessante de um bode expiatório que assenta uma parte do discurso político europeu. Mudam os protagonistas e os alvos; repete-se o mecanismo. A complexidade dá lugar à ameaça, a responsabilidade dissolve-se e o problema ganha um rosto conveniente: o estrangeiro, o adversário, alguém suficientemente distante de quem fala.

Se não tens casa, aponta-se para o Ahmed. Se os serviços falham, aponta-se para quem acabou de chegar. Do outro lado, também há quem responda com acusações cuja convicção excede as provas. Todos parecem saber quem culpar. Escasseiam os que explicam o que fazer.

Jogo perigoso, de pé em riste.

Esta cortina de fumo aproxima-nos do “vão trabalhar, malandros” e do “vai para a tua terra” das caixas de comentários, enquanto nos afasta da pergunta essencial: que medidas vão ser tomadas para resolver o problema?

Por cá, a conversa salta da habitação para os jovens de Lisboa e do Porto, daí para a legitimidade de uma carga policial e depois para a interpretação dos direitos constitucionais. São debates necessários. Mas nenhum dispensa respostas concretas sobre o acesso a uma casa.

Entretanto, a vida acontece — ou fica suspensa à espera de condições para acontecer.

Precisamos de discutir medidas, prazos, meios e responsabilidades. O que vai ser construído? Como se combate a exploração? Como se garante que trabalhar permite pagar uma casa? Quem executa, quem fiscaliza e quem responde pelo que fica por fazer?

É para isso que entregamos o nosso voto e pagamos impostos. Não para recebermos uma mão-cheia de acusações e outra de promessas vazias.

No Instagram, leio: “Artista sem posicionamento político é como uma planta de plástico: só decora o ambiente e não serve para mais nada.”

Dá que pensar. Para a semana, voltarei ao assunto: o que significa, para quem trabalha nas artes, tomar posição? E como responder a estas sentenças sem ligeireza, sem tibieza e sem reduzir o pensamento a um bate-boca até que a voz nos doa?

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