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A Primavera da vida

A adolescência é um mundo de contradições inesperadas, avassaladoras e incompreensíveis para quem as vive

Clara Leão, professora de dança Clara Leão, professora de dança
3 de Abril de 2025
em Opinião
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Clara Leão, professora de dança
Clara Leão, professora de dança3 de Abril de 2025

Acabo de ver o quarto e último episódio da série do momento, “Adolescência”, e não lhe posso passar ao lado. A mini-série trata do processo de avaliação de um adolescente de 13 anos que mata outra adolescente que lhe feriu os sentimentos, e a história aborda a violência passiva, o isolamento, a baixa autoestima, a necessidade de agradar e o sexo como moeda de troca para a sensação de pertença, vivida em contexto escolar, numa mistura de relações ao vivo e nas redes sociais.

A adolescência é um mundo de contradições inesperadas, avassaladoras e incompreensíveis para quem as vive; como diz a canção do Rui Veloso a Primavera da vida é bonita de viver, tão depressa o Sol brilha como a seguir está a chover. É precisar-se urgentemente de pertencer a uma tribo, mas sentir que se é diferente sem se saber porquê; é querer ficar bem longe dos carinhos, cuidados e autoridade dos Pais afirmando assim uma urgentíssima independência, mas sentindo muitas vezes uma incontornável e inconfessável necessidade de colo e protecção; é arriscar cegamente decisões e atitudes “crescidas”, mas sentir o susto de não se fazer a mínima ideia no que irão resultar; é cortar com o passado infantil, não poder vislumbrar qualquer futuro, e navegar cada dia aos altos e baixos, esperando que a noite chegue e o desconforto termine.

Não serão assim todas as adolescências, porque as alterações são biológicas e a altura em que acontecem, o modo como interferem com as emoções e de que forma são enquadradas pelo próprio e pelos adultos significativos, serão sempre diferentes; mas, vejo-me à noite ao espelho, o corpo sempre a mudar e por mais amigos que tenha sinto-me sempre sozinho, são sensações que farão sempre parte até da mais fácil das adolescências.

Isso, e o primeiro amor, que chegará de supetão, maravilhoso salto no escuro para dentro da magia de alguém, mas também o inevitável e doloroso desfecho de um para sempre que afinal acaba, ou a exposição ao ridículo, o gozo, ou o cruel maltratar de sentimentos que foram elevados à sua máxima potência. Será então a humilhação, a tristeza, a raiva, o fechamento. (E nunca julguem os adultos que esses amores não o são de verdade).

Restará sempre o quarto, o lugar a salvo de tudo e de todos, o ursinho ou a boneca às escondidas, o diário, as lágrimas secretas e… as redes sociais. Servindo de lugar onde se é o/a “maior”, onde pode ser levada a cabo a vingança pelo sofrido, ou onde a exposição da imagem pode confirmar o arrojo, a valentia e a autodeterminação que não se tem, as redes sociais substituem o mundo real onde cada adolescente deveria aprender a crescer, por um mundo pequenino, redutor, simplista, enganador, muitas vezes escuro, agressivo e tortuoso.

Nesse mundo não é possível crescer, e as emoções permanecem apenas à flor da pele. Os adultos precisam de ver esta série na companhia dos seus adolescentes, e conversá-la com eles. Sem medos e sem sermões, porque nós e eles precisamos de entender o que é preciso fazer para que possam ser melancólicos, desafiadores, mal educados, silenciosos, preguiçosos, e arredios, em segurança. 

Tópicos: adolescênciaaprendizagemClara LeãocrónicadançaeducaçãoemoçõesfamíliajovensLeiriamagiaopiniãopaisregião de Leiriasérie
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