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As Festas em Leiria e o TGV

Como é que uma cidade pode ser amiga do ambiente se promove um evento massificado de carros (inclusive um rally) no coração da sua malha urbana?

Márcio Lopes, docente do Politécnico de Leiria Márcio Lopes, docente do Politécnico de Leiria
7 de Outubro de 2024
em Opinião
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Márcio Lopes, docente do Politécnico de Leiria
Márcio Lopes, docente do Politécnico de Leiria7 de Outubro de 2024

Leiria está permanentemente em festa. É como se a cidade fosse o ambiente de euforia festiva do romance americano O Grande Gatsby.

É certo que a convivência social, a sociabilidade, funciona como um ansiolítico natural e isso alegra a população. Mas os eventos promovidos e acolhidos pela Câmara de Leiria (CML) já representam uma clara inadequação entre o evento em si, a sua dimensão de público e os vários distúrbios causados.

O conjunto dos eventos realizados não tem uma orientação integradora. São eventos avulsos de entretenimento geral (corridas de rua, espectáculos musicais diversos, feiras múltiplas) e desprovidos de uma visão estratégica de promoção da Cultura.

O objectivo da CML é fazer de Leiria um território de atracção turística. Mas turismo de quê? O turismo de um ou dois dias e o turismo que movimenta apenas a bifana, a cerveja e alguma hotelaria. O turismo que posiciona Leiria no sentido contrário do que possa ser uma Smart City.

Como é que uma cidade pode ser amiga do ambiente se promove um evento massificado de carros (inclusive um rally) no coração da sua malha urbana?

A acção política para tornar Leiria um território de atractividade não se coaduna nem com uma visão de Smart City, nem com a futura linha de alta velocidade (LAV).

A LAV representa uma redução do espaço/tempo e é promotora de economias de localização, tais como o chamado efeito densidade (ED). A LAV traz novas dinâmicas territoriais como, por exemplo, atraccão de mão-de-obra, novos investimentos (empresariais e residenciais) e ganhos de produtividade que advêm do efeito conjunto da interacção entre o trabalho qualificado e o capital, gerando, assim, spillover de conhecimento e prosperidade.

Mas a LAV também traz riscos para os territórios. O risco do movimento pendular.

A LAV colocará Leiria a apenas 40 minutos de Lisboa e 50 do Porto. Do mesmo modo que será mais fácil e mais rápido chegar a Leiria, também será mais fácil sair.

Leiria, tal como Santarém ou mesmo Caldas da Rainha, poderá ficar esvaziada, tornando-se uma cidade dormitório de Lisboa. O poder político tem uma visão simplista e unidireccional sobre a LAV.

A CML, na pessoa do senhor seu presidente, pensa que a LAV só trará efeitos positivos para o concelho. Esquece-se de que se o território não for suficientemente atractivo, as pessoas, o emprego e as empresas em vez de ficarem, saem.

E qual é a estratégia de atractividade que Leiria tem apresentado?

Os eventos de rua, o turismo de um ou dois dias, a economia das sandes, bifanas, cachorros e cervejas, o ruído, a sujidade, o uso disfuncional do espaço público, o aumento das emissões de CO2, os licenciamentos dos imóveis de luxo, sem resolver o problema da habitação.

Leiria está a acentuar as suas disfuncionalidades urbanas, está alegremente iludida com as suas festas de rua, está em contraciclo com o que deve ser uma cidade moderna e corre o sério risco de ser a maior vítima da LAV.

Tópicos: Márcio Lopesopinião
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