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Puro afeto

Na ânsia de atingir objetivos e metas, a “sociedade” e alguns “donos disto tudo”, devem-se esquecer que somos mortais

João Caldeira Heitor, Coordenador Científico da Licenciatura em Gestão do Turismo do Instituto Superior de Gestão João Caldeira Heitor, Coordenador Científico da Licenciatura em Gestão do Turismo do Instituto Superior de Gestão
3 de Agosto de 2024
em Opinião
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João Caldeira Heitor, Coordenador Científico da Licenciatura em Gestão do Turismo do Instituto Superior de Gestão
João Caldeira Heitor, Coordenador Científico da Licenciatura em Gestão do Turismo do Instituto Superior de Gestão3 de Agosto de 2024

Ligo o computador, acedo ao email e visualizo uma mensagem onde se lê: “Em meu nome e da Empresa X agradeço a sua visita à nossa loja na perspectiva de que todas as suas expectativas tenham sido excedidas. Para qualquer questão adicional, contacte-nos.” Assim, de forma simples, o sector comercial procura estabelecer uma relação de afeto com o cliente. Não refletindo, aprofundadamente, sobre o propósito deste email, concluímos, a sorrir, que a empresa nos “valoriza”.

Para além deste exemplo empresarial, sabemos que o afeto está presente em algumas áreas da sociedade. Ainda que o mesmo (afeto) possa ter um preço no mundo económico, são as relações humanas que o consubstanciam pela simplicidade, sinceridade, energia, entrega e cumplicidade. Dizem os manuais da psicologia e da filosofia, os livros sagrados e a própria simbiose entre o Homem e a natureza (que surgiu muito antes da escrita…), que é assim que se entrelaçam os laços da simpatia, do amor, do respeito, da liberdade, da admiração…

Na ânsia de atingir objetivos e metas, a “sociedade” e alguns “donos disto tudo”, devem-se esquecer que somos mortais. Até porque mesmo sabendo que vamos perecer, há o caminho da dignidade humana que se impõe garantir, no presente, e que se perpetuará na memória futura por quem o proporcionou, fomentou e viveu.

Além dos descendentes que o Homem deixa no mundo (até esses constroem a sua identidade e o seu caminho), tudo fica e tudo desaparece. Os edifícios caem, as estradas alteram-se, restando na estória e no pensamento (de uns quantos) o percurso da diferenciação ligado ao nome das pessoas “livres e de bons costumes”, detentoras do puro afeto e reconhecidas como tal pelos seus pares (familiares, organizacionais e sociais).

O comportamento humano é complexo. Basta olhar para cada um de nós e identificamos, decerto, na nossa história de vida, comportamentos que nos dias de hoje jamais repetiríamos. Ou será que há por aí quem tenha sido e/ou seja “perfeito”? Corrigir as fraquezas pode ser um sentido de vida. Todavia, não devemos procurar que o aperfeiçoamento individual nos leve ao ponto de perder a identidade, nem ousar converter os inconvertíveis ou, sequer, subir à estratosfera de falsos moralistas.

A sociedade, a que pertencemos e em que somos atores e figurantes, tem vários desígnios: diminuir a elevada hipocrisia da espuma dos dias; desvalorizar a imagem e compreender o valor do conteúdo; dar utilidade aos meios e com eles contribuir para temas substantivos, entre outros… Porém, mais do que seguir doutrinas ou mentes fechadas, urge derrubar barreiras, pensar, equacionar e duvidar, sem perder a essência (única e pessoal) que nos compõe.

Texto escrito segundo as regras do Novo Acordo Ortográfico de 1990

Tópicos: comunicaçãoeconomiaempresashumanizaçãoJoão Caldeira HeitorLeirianegócioopiniãoOurémpersonalizaçãoregião de Leiriaturismo
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