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Quem quiser que enfie a carapuça

Karl Popper refere que a tolerância ilimitada dirigida a pessoas intolerantes arruína os tolerantes

Paulo José Costa, psicólogo clínico Paulo José Costa, psicólogo clínico
24 de Setembro de 2021
em Opinião
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Paulo José Costa, psicólogo clínico
Paulo José Costa, psicólogo clínico24 de Setembro de 2021

Se este texto soar a insólito, talvez sejam efeitos secundários da vacina.

O poema de Vinicius de Moraes Insensatez é revelador: Vai, meu coração, ouve a razão / Usa só sinceridade / Quem semeia vento, diz a razão / Colhe sempre tempestade.

Neste mês em que retomamos rotinas após as férias, muitas azáfamas vão reactivar estados de inquietude.

A primeira lei da natureza para Voltaire é a tolerância, “já que temos todos uma porção de erros e fraquezas”, dizia.

Porém, há sempre um bom número de pessoas pouco ou nada disposto a segui-la, incorrendo em enganos recorrentes: entrincheiradas em pensamentos rígidos, tornam-se refractários às críticas e acreditam que as suas posições são incondicionais.

Impõem-se a si mesmas (e aos outros), um conjunto de tarefas que se situam no domínio do excesso.

Também para Voltaire, o antídoto para a intolerância era o humor: “Devemos manter o riso do nosso lado”, escreveu, confiante no poder desse recurso para abrir brechas em mentes empedernidas.

Se “rir é o melhor remédio”, ainda assim nem sempre se despoleta o (sor)riso num caprichoso.

Outra alternativa para enfrentar a intolerância é a empatia – a habilidade de sentir o que o outro sente, a partir da sua perspectiva.

Investigadores da Psicologia definem-na como a resposta emocional que deriva da percepção do estado ou condição no outro, suscitando congruências.

É integrante da compreensão de experiências nos seres humanos, atributo tão básico e relevante quanto os sentidos.

Riso e empatia são cruciais para enfrentar adversidades, mas não são infalíveis quando se lida com a intolerância extrema ou a insensatez recorrente.

Karl Popper refere que a tolerância ilimitada dirigida a pessoas intolerantes arruína os tolerantes.

Há quem pertença invariavelmente ao grupo dos insensatos, dos apavorados e dos conformistas, da etiqueta e do protocolo.

Talvez aqui haja uma dicotomia sem intermédio. Perante os argumentos, os factos vão-se esboroando em visões difusas e antagónicas.

Cada um olha o que quer, na perspectiva que mais lhe convém.

É bom que haja concordância no acto de discordar, sem retaliações ou injúrias.

Sejamos honestos: fazendo uma retrospectiva, com ou sem vacinas, imunizadoras de uma boa parte da população, não evitando a infecção ou a doença, a questão do impacto, não da enfermidade, reside no torpor e medo induzidos.

As medidas draconianas e os comportamentos adquiridos de desinfectar roupa e alimentos, lavar mãos com método, abrir portas com cotovelos, permanência em “bolhas” e circuitos para evitar o contacto, mantêm-se activas.

Ou a imposição de isolamento, mesmo perante resultados negativos e condição assintomática.

São bem mais nefastas para a saúde mental as consequências daqui resultantes, do que um menor risco de infecção a quem circule na sua existência, fora do ambiente restringente, respirando ar livre em plenos pulmões.

É inevitável que à custa de algum infortúnio venhamos a ser infectados.

Até se alcançar a pressuposta situação de convivência do vírus connosco, sem histerias, com algum grau de imunidade – embora não absoluta, assumindo a suscetibilidade em equilíbrio.

A tão propalada “normalidade” não passa de uma miragem.

Que a vida prossiga sem a obsessão dos R(t) e das curvas estatísticas da incidência, pois a existência é tão só, um palco de incertezas.

Tópicos: opiniãoPaulo José Costa
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