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Home Opinião

Letras | João Ricardo Pedro (2012) O teu rosto será o último, OU a arte subliminar da dor

Cristina Nobre, professora do ensino superior Cristina Nobre, professora do ensino superior
10/09/21 04:09
em Opinião
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Cristina Nobre, professora do ensino superior

Temos uma nova geração de escritores, surgidos do anonimato pela iluminação de uma consagração rápida através do foco de prémios literários, mais ou menos sonantes, e que muito têm contribuído para alargar o espectro do panorama cultural português. Refiro-me ao prémio Leya, neste caso concreto a João Ricardo Pedro, nascido em 1974 e engenheiro eletrotécnico de profissão, com o romance O teu rosto será o último, ganhador já há uma década, em 2011.

A primeira edição apareceu em 2012, acompanhada de tradução para várias línguas (10, entre as quais o chinês e o árabe – o que mostra o valor e o peso da ‘máquina’ comercial nas conexões da globalização artística). Em 2016 publicou novo romance, Um postal de Detroit, e continuará, seguramente, a fazê-lo.

Encontrar uma característica comum a toda a ficção narrativa literária atual pode ser uma procura vã. No entanto, o ‘desconforto’ parece ser uma linha inevitável com que o leitor acabará por se confrontar. E não me refiro apenas às temáticas abordadas, mas igualmente à estrutura das obras, cuja fragmentação pode ser um desafio para uma ligação de pormenores, atenção a sinais e indícios, e a capacidade de estabelecer redes interpretativas.

No caso concreto de O teu rosto será o último, o romance é constituído por sete partes, aparentemente autónomas, que têm como ponto de partida a Revolução de 1974. Porém, o leitor deve ativar o seu princípio de ‘estabelecer pontes’ através dos indícios que são deixados soltos em cada uma das partes, se quiser construir a história de uma família marcada pelos longos anos de ditadura e repressão política, pela guerra colonial, pelo encontro da arte como modo de sublimar os sofrimentos ou compreender ligações silenciosas.

Assim, a personagem Duarte acaba por ganhar um papel central; será sob o seu olhar infantil que as memórias alheias, ora traumáticas, ora obscuras, se enredam numa trama que esconde um segredo (como o iceberg do desenho oferecido a Duarte pelo seu amigo Índio). “[…] Duarte soube da morte do Índio pela mãe. A mãe perguntou-lhe, desdobrando-se em cautelas como se caminhasse sobre um terreno pantanoso: ‘Aquele teu amigo que te ofereceu o desenho que tens pendurado no quarto, não era o Índio?’ […] ‘Porquê?’, perguntou a mãe, e Duarte encolheu os ombros como se quisesse dar o assunto por encerrado. Então, a mãe aproximou-se e disse: ‘Morreu. Parece que o encontraram morto esta manhã.’ […]” (opus cit., p. 87)

Na 4.ª parte, quando Duarte, por ter abandonado a música e o seu dom interpretativo dos grandes românticos, consulta um médico, que usa no dedo mindinho um anel de ouro com a gravação das letras HC, não correspondentes ao seu nome, a ligação só se vem a estabelecer na 6.ª parte, com o encontro entre um professor de piano, visita ritual do Museu de História da Arte, em Viena, onde se apaixona por uma pintora misteriosa que aí encontra a pintar uma tela sobre um pormenor de um quadro de Bruegel. O quadro é oferecido a Duarte pelo professor, no dia em que a sua mãe morre de cancro. Porém, só na 7.ª parte, o leitor encontra a rede: a pintora, de nome Hannah ou Clawdia, viveu até à morte no quarto n.º 302, do hotel em Buenos Aires, do amigo do avô Augusto Mendes, Policarpo, a olhar para o quadro da mulher amputada de uma perna, tal como a personagem – revelação presente na única das suas cartas (truncada, pois lhe faltam as últimas páginas) que o avô nunca tinha lido a Duarte…

O diálogo final, entre Luísa e Duarte, não fecha; antes abre uma ampla janela sobre o modo como a arte e a dor se entrecruzam perigosamente, como um iceberg oculto e poderoso.

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