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Home Sociedade

Leiria reúne Natal de três continentes

África, Ásia e América: alunos do Politécnico de Leiria não vão a casa. Leiria reúne Natal de três continentes

Elisabete Cruz Elisabete Cruz
24 de Dezembro de 2022
em Sociedade
Moçambicanos, brasileiros , equatorianos e indonésios vão passar o Natal longe da família e viver a experiência da comemoração da quadra em Portugal.
Moçambicanos, brasileiros , equatorianos e indonésios vão passar o Natal longe da família e viver a experiência da comemoração da quadra em Portugal.
Moçambicanos, brasileiros , equatorianos e indonésios vão passar o Natal longe da família e viver a experiência da comemoração da quadra em Portugal.
Moçambicanos, brasileiros , equatorianos e indonésios vão passar o Natal longe da família e viver a experiência da comemoração da quadra em Portugal.
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A multiculturalidade é já uma marca do Politécnico de Leiria, que tem cerca de 1,600 estudantes internacionais, de 75 nacionalidades, nas suas escolas. Os quilómetros que separam muitos alunos das famílias obrigam a que o Natal seja passado na região ou noutra cidade de Portugal. O convívio entre diferentes nacionalidades ajuda a trocar experiências e a viver o espírito natalício de outra maneira.

O JORNAL DE LEIRIA falou com estudantes do Brasil, Equador, Indonésia e Moçambique. Há semelhanças e diferenças, mas a amizade que exalta na época é o que tem mais importância para os jovens que estão longe das famílias.

Naturais de Cabo Delgado, Moçambique, Zuneidy, 22 anos, Brigite, 24 anos, e Anselmo, 22 anos, são três dos 50 estudantes que vieram para o Politécnico de Leiria no âmbito de um protocolo de cooperação entre os governos dos dois países. Este será o primeiro Natal dos jovens longe de casa, apesar de nem todos celebrarem a quadra como os católicos, por serem muçulmanos.

Com pais de diferentes religiões – católica e muçulmana – Zuneidy e Brigite costumam comemorar o Natal no dia 25 de Dezembro. “Parte da minha família é católica e outra muçulmana. Habitualmente a família junta-se, jantamos e há uma comida especial, que no meu caso é uma refeição com carapau e mandioca”, adianta Zuneidy.

A manga também é presença assídua à mesa. Um almoço de família, sem troca de presentes, é habitual na família de Brigite, que destaca a importância de estarem juntos. Caracata, um dos pratos típicos de Moçambique, faz parte da ementa.

Muçulmanos respeitam tradição

Apesar de também ter raízes cristãs, Anselmo segue a religião muçulmana, pelo que não festeja o Natal em Cabo Delgado. “É um dia normal, mas respeitamos a data festiva. Às vezes, sentimo-nos um pouco à parte por não estarmos envolvidos nessas comemorações, mas temos o Eid”, explica o jovem.

O Eid é uma celebração muçulmana que marca o fim do jejum do Ramadão, um ritual que Anselmo cumpre. “A religião é harmonia e paz. Os muçulmanos convidam os católicos para participar. O meu pai também já me levou à missa no dia 25 de Dezembro”, revela.

Na festa a comida existe em abundância e há diversos pratos típicos. “O que não pode faltar são os doces e os salgados. Há muitas chamuças, rissóis e badjias”, contam.

No dia 20, o Politécnico realizou um convívio para a comunidade internacional, onde cada estudante poderia levar um prato típico. “É uma iniciativa interessante. Fortalece o nosso laço de família uns com os outros”, reconhece Brigite. Este ano, os três moçambicanos vão ficar em Leiria.

Brigite já combinou um jantar para o dia 24 de Dezembro com alguns amigos portugueses e brasileiros. “Vamos fazer o nosso Natal. Será um misto de Natal”. Zuneidy tem marcado um almoço para o dia 25 e Anselmo ainda aguarda por um programa. Se o convite chegar, afirma que participará porque também quer ganhar experiências. “Uma das coisas que quero levar daqui é saber como são as coisas em Portugal”, afirma Anselmo, acreditando que quando regressar a Moçambique quer estar preparado para responder a todas as curiosidades que amigos e familiares tiverem sobre Portugal.

Quando saíram de Cabo Delgado, a insegurança era grande. As principais dificuldades que encontraram foi a comunicação. “Precisávamos de escutar muito, porque há diferenças nas expressões e os portugueses falam muito rápido”, confessam.

À sua espera tinham as residências do Politécnico de Leiria, a disponibilidade das autarquias de Pombal e Caldas da Rainha em ceder alojamento e uma casa do Seminário Diocesano de Leiria, onde estão 12 estudantes moçambicanos. “Tudo corre bem”, assumem. “Já estamos habituados a estar numa casa com muita gente. Na nossa terra há o hábito de acolhermos familiares quando vão estudar para a cidade onde estamos e somos sempre muitos”, explicam os jovens que estão na habitação do seminário.

Equador como em Portugal

Melanie, 20 anos, Martim, 23 anos, e Aleksey, 19 anos, chegaram do Equador para estudarem Fisioterapia, Contabilidade e Finanças e Engenharia Civil, respectivamente. Passar o Natal longe da família não será fácil e as saudades, uma palavra muito portuguesa, apertam.

No Equador a quadra é festejada de forma idêntica à de Portugal. “Costumamos estar em família e jantamos peru”, adianta Melanie. Martim acrescenta que na sua família há a tradição do amigo secreto. “É igual. É muito festivo, a família junta-se toda e há troca de presentes. Comemos peru com salada e vários pratos típicos”, afirma Aleksey, que tem ascendência russa.

À mesa não faltam, por exemplo, os buñuelos, uma massa frita que se come com mel. No próximo dia 24, os jovens vão reunir-se com o seu grupo e festejar da mesma forma. “Vamos fazer um amigo secreto e a comida vai ser igual”, conta Martim. Os jovens estão felizes com a experiência no Politécnico de Leiria.

“Acho que esta experiência de independência é boa para aprender a experimentar coisas novas”, assume Martim, ao acrescentar que escolheu Leiria porque queria um novo desafio e aprender uma língua que não fosse muito diferente. “O português é muito semelhante e isso é bom para mim”, refere.

Sobre o Natal russo, Aleksey explica que essa parte da família não comemora o Natal, pois na Rússia a quadra é celebrada no dia de Reis.

Natal em indonésio

Rilal, 30 anos, veio da Indonésia para Peniche, onde está a realizar um mestrado em turismo. “Sou de uma família muçulmana e por isso o Natal não é realmente celebrado, mas em alguns sítios, como na capital da Indonésia, o Natal é celebrado em grande”, revela.

Em Leiria visitou as decorações natalícias que existem pela cidade. “Aqui é muito bom. Vou celebrar o Natal cá em Portugal, talvez vá até Lisboa com os meus amigos e ver algumas das atracções”, afirma.

Desconhecendo a tradição do bacalhau à mesa da Consoada, Rilal aceitou experimentar o prato português. “Não sou um bom cozinheiro, mas na Indonésia, a minha mãe faz comidas boas e deliciosas como o frango de caril e comemos isso no Natal”, adianta.

Rilal está com outros seis indonésios na Escola Superior de Turismo e Tecnologia do Mar. “Gosto de estar aqui. As pessoas são boas, a temperatura não é muito fria se compararmos com outros países europeus, o que é bom para mim”, destaca. Natal no Brasil implica praia Marina, 31 anos, está a tirar o mestrado em Mediação Intercultural e Intervenção Social, e Aline, 27 anos, está a estudar Teatro.

As alunas brasileiras vão passar o Natal à distância. “Vou passar a ceia com a família, mas com três horas de diferença e através do whatsapp”, revela Marina, mãe de um adolescente, que ficou com o pai no Brasil. “Há muita comida sempre. A festa começa muito tempo antes da ceia, que se realiza à meia-noite. Durante o dia vamos à praia e há churrasco”, adianta Aline.

Segundo as estudantes, no jantar de Natal pode haver o tender, o chester e o peru, o arroz de uva passas, assim como a farofa. Quanto a doces, o pavê, a rabanada e o maracujá dominam a mesa. Marina acrescenta que a quantidade de comida é sempre superior ao número de pessoas presentes, pelo que as sobras dão para toda a semana. O amigo secreto é também uma tradição, permitindo assim que “todos recebam presentes”.

Aline ainda não tem planos para este Natal, mas não está preocupada. “Somos brasileiros, de certeza que não vou passar o Natal sozinha”. Quando era pequena, os presentes eram deixados debaixo da árvores e quando tocavam as 12 badaladas eram abertos. “A minha mãe dizia-me sempre: ‘vê bem como se comportou para o Pai Natal lhe trazer o presente’.”

Na família de Aline, a tradição era escrever a carta ao Pai Natal e pendurar uma meia vermelha na porta, porque “no Brasil não há chaminés”.

“Os presentes eram escondidos e tínhamos de os procurar, com a indicação que o Pai Natal teria deixado algo por ali”, recorda.

Tópicos: católicoestudantes estrangeirosindonésionatalnatal Equadornatal muçulmanopolitécnico de Leiriasociedade
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