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No Feminino

O álcool surgiu como a única forma de lidar com a dor imensa, anestesiando-a o mais que pôde e agora era uma forma desesperada de sobreviver.

Patrícia António, psicóloga e psicoterapeuta Patrícia António, psicóloga e psicoterapeuta
9 de Outubro de 2020
em Opinião
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Patrícia António, psicóloga e psicoterapeuta
Patrícia António, psicóloga e psicoterapeuta9 de Outubro de 2020

Vou buscar Maria (nome fictício) à sala de espera da Unidade de Alcoolgia de Lisboa (UAL).

Encontro-a e, simultaneamente ao seu olhar, assustados na última fila da sala.

Era a sua primeira vez na UAL e de ombros caídos trazia ao colo um peso imenso e sem fim: o peso do estigma e da culpa em ser mulher.

Fora mãe muito jovem, “sem tempo para crescer e viver a própria vida” refere.

Depois veio o abandono afectivo, a traição, o divórcio.

O álcool surgiu como a única forma de lidar com a dor imensa, anestesiando-a o mais que pôde e agora era uma forma desesperada de sobreviver.

Uma dependência “escondida” e “abafada” até muito tarde.

Com curiosidade e empatia pergunto: “E quem era a Maria antes do álcool?! Ui, não sei dizer, foi há tanto tempo…”.

Imediatamente digo que ali comigo vai ser muito importante conhecer essa Maria, ao seu ritmo, mas que seguramente lá atrás não pôde pedir ajuda porque não podia confiar a sua dor escondida.

Gabor Maté, médico americano especialista na área das Adições de quem eu gosto muito, diz-nos que nem todas as pessoas negligenciadas ou traumatizadas se tornam adictas, mas todas as pessoas adictas terão sido negligenciadas.

E esta é também a minha experiência clínica na UAL, por isso é tão importante saber ver para além do álcool, saber como escutar para além do óbvio e interessarmo-nos pelas razões de fundo.

No final da consulta detenho-me, por breves minutos, junto a uma das gravuras que estão expostas na parede ao lado do meu gabinte.

São muitas antigas mas efectivamente muito capazes de retratar o peso ancestral e moral da vergonha e da reprovação social que Maria tinha acabado de deixar comigo.

Numa delas está um homem na taberna caído ao balcão e à porta a mulher carregando os filhos ao colo e que me transporta imediatamente para a sua inquietação: “Sabe, aos homens é permitido beber, sair à noite, estar nos cafés e eu mulher estou aqui consigo com uma doença de homens, sinto muita vergonha. Será que algum dia poderei recuperar-me apesar de todo o mal que me faço?!”

Nos últimos anos em Portugal temos assistido a uma diminuição da prevalência do consumo de álcool entre os homens e a uma subida entre as mulheres, o que apela à necessidade de pararmos para reflectir, conjugar saberes e perspectivar intervenções a fazer no âmbito das nossas respostas terapêuticas que ainda são muito marcadas por narrativas masculinas, quer dos próprios homens e mulheres que nos procuram, quer de nós técnicos e que estigmatizam e culpabilizam as mulheres, uma população que é mais vulnerável aos efeitos do álcool e que muitas vezes incorre em situações de maior risco de abuso, agressão e violência de género.

No mesmo dia em que finalizo esta reflexão sei da morte de Ruth Bader Ginsburg, a mais antiga juíza do Supremo Tribunal dos EUA e que dedicou a vida toda a lutar pelos direitos das mulheres e pela igualdade para todos.

Releio uma das suas célebres citações profundamente inspiradora: “Women belong in all places where decisions are being made”.

Também assim urge ser na construção de novas respostas terapêuticas nos nossos serviços e assim seguramente será na elaboração do projecto terapêutico da Maria na UAL, as duas juntas e de mão dada nos diferentes passos a dar para encontrar e desenvolver o seu verdadeiro Eu.

Tópicos: opiniãopatrícia antónio
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