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Três histórias sobre a cor que nos une

Na semana passada, na procura de uma ama para a minha neta Leonor, quase com dois anos, os pais encontraram a Maria, uma senhora angolana. No breve e primeiro encontro que se seguiu, a Leonor deu os braços à Maria e deixou-se ficar ao seu colo. 

Joaquim Ruivo, professor Joaquim Ruivo, professor
10 de Setembro de 2020
em Opinião
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Joaquim Ruivo, professor
Joaquim Ruivo, professor10 de Setembro de 2020

1.Foi um anúncio marcante e polémico da Benneton: um bebé branco, acabado de nascer, mama no peito de uma mulher negra. Que imagem magnífica!

Nela se condensa a História da Humanidade e de todos nós: África é o nosso berço comum, de onde toda a Humanidade saiu.

Metaforicamente falando, Adão e Eva, Caim e Abel seriam negros.

2. E há experiências na nossa vida que nos marcam indelevelmente. Não me refiro somente às grandes alegrias, ou grandes tristezas, mas a outras coisas mais subtis que, procuradas no mais fundo de nós mesmos, acabamos por descobrir como essenciais.

Duas dessas experiências devo-as aos meus primos, os Carreira das Neves. Três irmãos e duas irmãs, todos franciscanos.

Julgo que teria uns seis anos, ainda nem havia eletricidade e pode ter sido num Verão. Tinha caído a noite há pouco.

Bateram à porta da cozinha onde tínhamos acabado de jantar e, no lusco fusco do cair da noite, reconhecemos de imediato a voz do nosso primo, missionário na Guiné, o Artur Carreira das Neves.

Trazia ao seu lado um rapaz que mal conseguíamos ver, nessa penumbra de Verão só iluminada pelo candeeiro de petróleo. Foi uma aparição que me silenciou: um menino negro.

Durante o tempo do convívio, ali ficámos depois na sala, eu tão calado como o outro, a observar-nos mutuamente, em todo o tempo em que meus pais e o meu primo confraternizaram alegremente. E eu ainda mais admirado, curioso, espantado, por ver pela primeira vez nos meus seis ou sete anos de existência o que só havia visto em estampas e jornais e na televisão, em Leiria, esporadicamente: alguém de outra cor.

E seis ou sete anos depois, de novo, o Artur proporcionou-me outra experiência que nunca mais esqueci.

Numa dessas longas férias de Verão, trouxe consigo para passar férias um rapaz guineense, da minha idade, educado no colégio franciscano de Bissau.

A amizade foi instantânea, recíproca. Sei que falámos muito nesses 15 dias de convívio e que lhe fiz muitas perguntas sobre como era a Guiné, como viviam, como era o clima e se havia muitas cobras e crocodilos… a guerra era coisa longínqua que nem associava à terra daquele meu novo amigo, nem compreenderia, seguramente, então com 12 anos, porque havia razão para combater.

Calcorreámos, nesses 15 dias, a aldeia, brincámos com vários amigos, e passado o espanto inicial, sempre todos convivemos sem qualquer reserva ou emoção diferenciada.

Éramos apenas garotos iguais, sem qualquer distinção, numa aldeia que continuou placidamente a fazer a sua vida e a seguir o ritmo natural dos dias ainda marcados pelos trabalhos da terra.

Ficámos de nos escrever, após o seu regresso a Bissau, mas isso não aconteceu e muitos anos após (ainda hoje!) sempre lamentei não o ter feito.

3 . Na semana passada, na procura de uma ama para a minha neta Leonor, quase com dois anos, os pais encontraram a Maria, uma senhora angolana. No breve e primeiro encontro que se seguiu, a Leonor deu os braços à Maria e deixou-se ficar ao seu colo. 

Tópicos: Joaquim Ruivoopinião
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