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Carpe Diem

Tal não significa um viver imperturbável e arredado do que nos custa, ou dói, ou  desespera, procurando nos dias a possibilidade  de festa permanente

Clara Leão, professora de dança Clara Leão, professora de dança
27 de Agosto de 2020
em Opinião
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Clara Leão, professora de dança
Clara Leão, professora de dança27 de Agosto de 2020

É uma frase que se lê, e ouve, com alguma frequência, encurtada de Carpe diem  quam minimum credula postero.

Quando usada como conselho para que não seja  lembrado ou se faça por esquecer o que nos  possa afligir, ou como proclamação de que tudo vai bem, mesmo quando não, porque o dia será transformado em rosada alegria, a pequena frase foge à ideia original, e abriga o engano de  se julgar possível (e útil) um viver alegre e  despreocupado e, portanto, a possibilidade de  adiar para sempre as aflições.

A frase, do poeta  romano Horácio (65 aC), com a tradução colhe o  dia e confia o mínimo possível no amanhã, significa que devemos aproveitar o presente já  que a vida é breve e não podemos confiar que  será grande a quantidade de dias por chegar.  

Mas tal não significa um viver imperturbável e  arredado do que nos custa, ou dói, ou  desespera, procurando nos dias a possibilidade  de festa permanente.

Na verdade, aproveitar o dia será viver todas as suas circunstâncias, sentindo, resolvendo, construindo, e partilhando, ligando o que passou ao que  projectamos que possa vir a acontecer, de modo  a que a vida se faça um belo caminho com sentido.

Não se trata de viver apenas no presente porque a nossa vida apenas existe através da memória do que aprendemos, do que  sentimos, e do que construímos; é pela memória que vamos sabendo quem somos, e com ela, quanto baste, se faz o caminho para o que virá  depois.

E não faria também qualquer sentido não nos importarmos com o futuro, não o planearmos de forma a procurar que ele  aconteça do modo como os nossos sonhos o querem desenhar, e não o ansiarmos, ou termos medo dele, de quando em vez, quanto baste, também.

Colher o dia é tarefa importante, mas difícil.

Aconchegado entre esse quanto baste de passado e de futuro, cada dia é uma miríade de instantes preciosos que nunca poderemos guardar por inteiro porque não somos sequer capazes de nos aperceber de todos eles.

Quando os dias passam devagar e nos permitem a felicidade do pequeno aborrecimento por algum mais lento escoar de horas que julgamos vazias, fica-nos a consciência de um eu tridimensional, que se desloca entre dois pontos ou permanece aquietado num deles; que sente um cabelo a teimar infinitas vezes roçar a cara, ou o suave queimar do sol num nadinha de pele exposta entre as tiras da sandália; que repara na languidez de um cão deitado ao sol, no ruído longínquo de um motor, ou no esbater demorado do rasto silencioso de um avião.

Fica-nos a consciência de um silêncio que nos circunscreve e nos torna por isso conscientes do corpo e do pensamento no aqui e agora.

Carpe diem.

E fica-nos também a atenção a quem connosco cruza os dias, numa partilha tão simples que não parece fazer história, mas que afinal tece lenta e seguramente uma memória de nós onde um dia precisaremos de voltar.

Carpe diem.

m tempos de agitação interior, de inesperadas dificuldades com pouco fim à vista, ou em tempos em que a vida acontece com leveza e a fiada dos dias se assemelha a um pequenino fogo de artifício, Carpe diem, colhamos toda a espécie de pequenas grandes coisas.

Tópicos: carpe diemClara Leãoopinião
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