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O aeróstato

Afinal dava jeito ter-se à mão a mão de quem votava sempre a favor da maioria de momento.

João Lázaro, psicólogo clínico e director do TE-ATO João Lázaro, psicólogo clínico e director do TE-ATO
6 de Fevereiro de 2020
em Opinião
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João Lázaro, psicólogo clínico e director do TE-ATO
João Lázaro, psicólogo clínico e director do TE-ATO6 de Fevereiro de 2020

Na verdade, ele não era um tipo que desse nas vistas. Meão de altura, nariz adunco, saliente de ossos e desajeitado.

Gaiato, ainda, já tinha tomado consciência que os favores da genética o tinham traído e, por via disso, era sempre o último a ser escolhido para as partidas de futebol no recreio da escola.

Como se a humilhação não bastasse, era posto a guarda-redes que é, coisa sabida entre a cachopada, lugar dos desajeitados no drible da redondinha. Vingava-se nas letras e nos números.

Um Ás na tabuada, na ladainha dos rios e seus afluentes, serras e sua localização e altura, reinados e dinastias. No desenho era uma nódoa, mas a mestra parecia não dar importância a qualquer tipo de garatuja, fosse melhor ou pior conseguida.

Espigado, enquanto outros se atreviam em fanfarronices ele, cabisbaixo, evitava os da sua idade e refugiava-se a um canto, e poucos anos bastaram para que aprendesse a arte de se tornar invisível.

Assim se manteve incólume à associação com os outros, estivessem eles em grupo desportivo, partidário, religioso, social, recreativo.

Por via desta artimanha acaba por estar em todo o lado sem pertencer a lugar nenhum.

Contudo, cedo entendeu que, para não ser evitado e não se implicar com o que quer que fosse, o melhor seria estar de acordo com quem estava e com o local onde estava.

A estratégia valeu-lhe o epíteto de “o rolha”, afinal nunca ia ao fundo de qualquer questão, nunca se atrevia a comprometer-se (não fosse a coisa dar para o torto) e assim não se afundar com os demais, e sempre merecia as graças de quem estava na mó de cima porque parecia concordar sempre com tudo. Tornou-se imprescindível.

Afinal dava jeito ter-se à mão a mão de quem votava sempre a favor da maioria de momento.

Fez carreira entre os que se alimentam da esfera da política. Nunca na fila da frente. Jamais. Mas em qualquer retrato no jornal ou apontamento televisivo, era fácil descobrir, em segundo plano, a sua imparcial e omnipresente cara.

Um dia, porém, acordou com uma indisposição forte na alma.

Sentia-se inquieto, incompleto, incompreendido. Era chegada a hora de dar a conhecer ao mundo a sua pessoa. Tinha que ser alguém. Para que o vissem, para que soubessem da sua existência, para – finalmente – ser retratado na primeira fila de qualquer coisa.

Pendurou o pijama listado num cabide, tomou duche, barbeou-se, aspergiu-se de água de lavanda, vestiu o fatinho cinzento e saiu, convicto que iria dar ao mundo um indelével contributo.

Passou pelo banco e esvaziou a conta. Não era muito, mas anos a fio privado de convites sociais tinham-lhe permitido reunir dinheiro que se visse, e ocupava quase até meio a pastinha que levava debaixo do braço.

Do bolso interior do casaco retirou um recorte de jornal e confirmou a morada. Não que precisasse, que há muito a sabia de cor, mas mais para sentir como real a sua vontade.

Apanhou o comboio para os subúrbios onde se apeou a uma centena de metros da cerca do ferro-velho. O proprietário era tão velho como o ferro que vendia, pelo que não se espantou com a compra, tantos tinham sido ao longo dos anos as inutilidades vendidas a peso.

Regressou à cidade, mas não de comboio.

Antes, isso sim, de aeróstato. Todos o viram, aplaudiram, de pescocinhos no ar e mãozinhas esticadas. E ele lá em cima, sozinho, senhor de si e de todos, a mostrar que tantos anos a flutuar lhe davam agora o direito de ser invejado.

PS: Por força dos ventos, o aparelho sumiu-se não se sabe para onde e ainda hoje ninguém sabe precisar qual o nome de batismo do “rolha”.

Texto escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990

 

Tópicos: João Lázaroopinião
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