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Desilusões

Curiosamente, outra das minhas desilusões está também ligada às expectativas que nessa época formei sobre os magistrados da Justiça.

Amélia do Vale, professora Amélia do Vale, professora
15 de Novembro de 2019
em Opinião
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Amélia do Vale, professora
Amélia do Vale, professora15 de Novembro de 2019

Tenho de reconhecer que não sou muito dada a desilusões!

De facto, esse sentimento de insatisfação que surge quando as expectativas sobre algo ou alguém não se concretizam não me tem visitado muitas vezes.

Como gosto de observar os comportamentos humanos e o que se passa à minha volta tenho tendência para, antes de julgar as ações de cada indivíduo, o “estudar” e por isso de encontrar nos respetivos contextos e percursos de vida as justificações para as suas, por vezes, estranhas formas de agir. E com os ambientes passa-se o mesmo.

Quando os visito, ligo todas as pontinhas do que observo e com isso formo uma ideia sobre a capacidade de cada um deles para gerar bem-estar, nada ou insegurança na vida dos seres que o habitam.

Talvez seja por isso que, se por um lado, dificilmente alguém ou alguma coisa me desilude, por outro, quando isso acontece, tal fica marcado em mim para toda a vida.

Como exemplo da primeira situação refiro o voto do deputado Nuno Melo, militante de um partido português que se diz inspirado pela democracia cristã, e que com o seu voto rejeitou uma resolução que “instava Estados-membros da União Europeia a reforçarem as suas operações de busca e salvamento no Mediterrâneo (…) e a encontrarem uma solução estável para a distribuição dos requerentes de asilo socorridos no mar”.

Ora, habituada a reconhecer tão pouco cristianismo em muitas das políticas e ações do partido que escolheu representar, como podia eu ficar desiludida com o voto deste parlamentar? Já como exemplo da segunda situação devo regressar à primeira década da minha vida.

Recordo a enorme desilusão que senti quando percebi que, na Península Ibérica, a supremacia de Portugal sobre a vizinha Espanha, que me andava a ser ensinada pelos professores e livros na escola primária e que eu sentia nos olhares com que os espanhóis cobiçavam os carros dos nossos pais, tudo não passava de uma enorme falsidade.

Ainda hoje quase sinto o que senti quando, intrigada, questionei o meu pai sobre a proveniência dos carros SEAT que comecei a ver circular, vindos de Castela, e o meu pai me explicou os porquês de eles serem o resultado de uma boa iniciativa da indústria espanhola para incentivar a venda de carros espanhóis, na Espanha do pós-guerra.

Curiosamente, outra das minhas desilusões está também ligada às expectativas que nessa época formei sobre os magistrados da Justiça.

Achava-os eu uns sábios capazes de pegarem no Direito e construírem com recurso à sua formação humana, bagagem cultural e competência técnica, um conhecimento holístico de valor absoluto e por isso não dependente das suas crenças religiosas ou políticas.

Mas oh, que desilusão!

Com o que optam por fazer a alguns e não fazer a outros, mas também com o seu sindicato andam para mim a revelar-se, afinal, como trabalhadores subordinados. Confesso que apesar de não ser muito dada a desilusões, estas duas, que me foram provocadas, por subordinados na Educação e na Justiça, não me deixam em paz. Temo que ambas estejam já a provocar uma preocupante desilusão com a democracia…

*Texto escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990

Tópicos: Amélia do Valeopinião
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