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Home Opinião

Beco sem saída

Estaremos dispostos a sofrer por quem vem a seguir ou optaremos por queimar nós os últimos cartuchos?

João Nazário João Nazário
27 de Junho de 2019
em Opinião
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João Nazário
João Nazário27 de Junho de 2019

Poucas vezes na sua história a Humanidade se terá visto perante um nó tão complexo de desatar como nos dias de hoje, parecendo caminhar para um beco sem saída.

Por um lado, todo o sistema económico e social está assente num modelo que obriga ao crescimento constante da economia, a produzir-se mais e mais, a maior rentabilidade e competitividade, a gerar riqueza assente no consumo e na exploração dos recursos naturais.

Quando isso não acontece, palavras como ‘recessão’, ‘abrandamento’, ‘défice’ ou ‘crise’ invadem o nosso quotidiano e instala-se o pânico, surgindo o desemprego, os dramas sociais e a inevitável austeridade que, normalmente, é sinónimo de dificuldades acrescidas para os mais desfavorecidos, história bem conhecida dos portugueses.

A esperança só retorna quando começa a haver sinais positivos da economia, que é como quem diz, crescimento do PIB, aumento das exportações, maior consumo, mais investimento na indústria e na construção.

Chegámos a um ponto onde as nossas vidas parecem estar completamente dependentes do desempenho da economia que, por sua vez, precisa que continuemos com os nossos hábitos de consumo voraz.

Para o conseguir, tem-se tornado cada vez mais sedutora ou, como refere Lipovetsky em entrevista esta semana ao jornal i, num “sistema de tentações constantes”.

Tentações essas agora mais acessíveis, com muito do que no passado era reservado a uma elite a estar ao alcance das massas, pela democratização do consumo que o conceito de low cost permitiu.

Quem parece não estar nada de acordo com este modelo é o planeta que nos acolhe há centenas de milhares de anos e que vai dando já fortes sinais de que não aguenta tanto ‘desenvolvimento’, lançando sérios avisos de que ou mudamos os nossos comportamentos ou, brevemente, teremos de procurar outro local para habitar.

Os mais pessimistas dizem mesmo que se nada for feito, a Humanidade poderá extinguir-se dentro de três ou quatro décadas, sendo unânime entre as pessoas de bom-senso que vivemos num verdadeiro estado de urgência climática, prestes a entrar em situações graves de não retorno.

Ou seja, vivemos um tempo onde não há espaço para discussões ideológicas ou disputas geo-estratégicas, pois, excluindo Trump e mais um bando de cretinos do mesmo género, já todos perceberam que as mudanças terão de ser radicais, sob pena de nada deixarmos para as gerações que nos sucederem.

O problema é que as tais mudanças necessárias vão chocar de frente contra o modelo económico e social vigente e contra os hábitos instalados, algo que, como é sabido, não se muda com um estalar de dedos, que seria o que a urgência climática em que vivemos recomendaria.

Adivinham-se, portanto, tempos muito difíceis, pois ou continuamos como temos feito, ficando à espera do que possa acontecer, tipo ‘roleta russa’, ou será necessária uma grande revolução, com todos os dramas sociais que normalmente lhe estão associados.

Estaremos dispostos a sofrer por quem vem a seguir ou optaremos por queimar nós os últimos cartuchos? 

*director

Tópicos: editorialjoão Nazário
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