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Democracia, confiança e mérito

Thomas Mann descreve a sociedade de Lübeck, no século XIX, em que as distâncias sociais são ainda muito grandes e assumidas.

José Amado da Silva, professor universitário José Amado da Silva, professor universitário
11 de Abril de 2019
em Opinião
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José Amado da Silva, professor universitário
José Amado da Silva, professor universitário11 de Abril de 2019

Meu Caro Zé,

Quando pensei escrever esta carta tinha quase decidido não falar de um tema ubíquo na sociedade portuguesa atual, que muito tem a ver com a qualidade da democracia em que vivemos e que, supostamente, dada a lógica de que a sociedade humana caminha, embora aos altos e baixos, no sentido do progresso, este se devia estender à democracia.

Só que, ao ler Os Buddenbrook de Thomas Mann, fui confrontado com o tema num sentido em que parece evidenciar-se um retrocesso na qualidade da democracia em que vivemos. Thomas Mann descreve a sociedade de Lübeck, no século XIX, em que as distâncias sociais são ainda muito grandes e assumidas.

Basta transcrever as palavras de uma dos Buddenbrook (Tony) para caraterizar a situação: “Nestes anos todos, pensei nas palavras que alguém, uma pessoa inteligente, me dizia um dia: ‘A menina sente simpatia pelos aristocratas…’ – foram as suas palavras – ‘e quer que lhe diga porquê? Porque a menina também pertence a esse grupo… Um abismo a separa de quem não pertence ao círculo das famílias poderosas.’”

Pois neste ambiente vagou um lugar de senador, a que se sucedeu uma eleição. Sobre ela escreve Thomas Mann: “Era mais do que urgente uma lufada de ar fresco no Senado. O cônsul Huneus, negociante de madeiras, cuja fortuna pesava, e muito, na balança das ponderações, estava excluído por força da lei, já que o irmão pertencia ao Senado.”

O vencedor da eleição foi o irmão mais velho de Tony, Tom, que no ato de investidura, fez o seu juramento, do qual destaco: “Juro… administrar com honradez [LER_MAIS]  os bens públicos e ser imparcial no exercício do meu cargo, nomeadamente em situações de eleições, não tornando partido, nem em meu próprio proveito, nem em proveito dos meus familiares e amigos.”

Como vês, Zé, com o que se passa em Portugal e, designadamente, no Governo, quer no que diz respeito a família e amigos quer no que toca ao tempo de eleições, era impossível não ser tocado por esta descrição do século XIX, com a inevitável legitimidade da pergunta: “A qualidade da democracia melhorou?”

Tu e o leitor responderão, sem embargo de ser necessário, como condição prévia, distinguir, por um lado, se isto é um problema de legalidade ou de legitimidade e de ética (não se fala tanto de “ética republicana”?) e, por outro, da não confusão do reconhecimento de que há cargos de proximidade em que a confiança pessoal é imprescindível e outro, a maioria, onde o mérito é condição curial de escolha, em particular no caso “dos bens públicos”.

Nesses não chega ter mérito suficiente, é preciso ter o maior mérito, porque “os bens públicos”, ao contrário dos privados, não são posse de ninguém e devem ser “administrados com honradez” (e não utilizados quase discricionariamente) e “imparcialmente” (isto é, sem privilegiar qualquer parte).

Parece-me que estamos a andar para trás, ou não? E, claro, já nem falo do “círculo das famílias poderosas”, em que “família” pode passar a ter um sentido muito alargado e equívoco. Até sempre,

*Professor universitário
*Texto escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990

Tópicos: José Amado da Silvaopinião
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