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Home Missão Ucrânia

Quase 120 pessoas já cederam alojamento para refugiados na região

Cláudio Garcia Cláudio Garcia
25 de Março de 2022
em Missão Ucrânia
Quase 120 pessoas já cederam alojamento para refugiados na região
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São anos e anos a acumular memórias e agora há um novo momento, seguramente inesquecível. A casa de férias dos Grosso Rodrigues em São Pedro de Moel abre-se para acolher Maryna, Daniel e o filho de três anos e meio, Yaroslav, que fogem da Ucrânia em chamas.

Torna- se abrigo não subterrâneo, zona de exclusão aérea, corredor humanitário para a família proveniente de Irpin, uma das cidades mais castigadas pela ofensiva russa.

Como não imaginar que Maryna, Daniel e Yaroslav chegam do inferno ao paraíso? “Quando viram no terraço o mar e olharam para o vale à frente deles… e estava um dia lindo, um dia de sol”, recorda Catarina Grosso, que disponibilizou o imóvel na plataforma SOS Ucrânia criada pela Comunidade Intermunicipal da Região de Leiria (CIMRL). “Achei que o alojamento seria a forma de eu poder ajudar, porque queria contribuir de algum modo. Lembrei- me da casa de São Pedro, é uma casa que está desocupada quase todo o ano e é uma casa óptima num sítio óptimo. E achei que para quem vinha de um cenário tão difícil e tão desumano, seria paz e seria um sítio bom para estar até pensarem como vão viver a vida daqui para a frente”.

Segundo Paulo Batista Santos, primeiro secretário executivo da CIMRL, cerca de 120 pessoas residentes em Leiria, Marinha Grande, Batalha e noutros concelhos do distrito já submeteram na plataforma SOS Ucrânia – Região de Leiria, através de um formulário online que se preenche em menos de um minuto, alojamento suficiente para 380 refugiados, que não conhecem, mas querem amparar na chegada a Portugal.

Maryna e Daniel encontraram em São Pedro de Moel uma moradia de praia totalmente equipada, com o frigorífico repleto e brinquedos para Yaroslav, que lhes é entregue “para poderem estar nela como se fosse deles”, em segurança.

“Se eu estivesse numa situação destas, como seria?”, pergunta Catarina Grosso, psicoterapeuta e psicóloga clínica. Depois de semanas em fuga, é urgente “tempo para se reorganizarem internamente e não terem de estar preocupados em cumprir determinados papéis que são exigidos quando estão a partilhar casa com alguém”. Ou seja, tempo para “estarem como são e como sentem que precisam”.

Em São Pedro de Moel desde sábado, 19 de Março, vêem o oceano pela primeira vez e sentem “uma sorte estranha” e “irreal”, diz Maryna Subbotin ao JORNAL DE LEIRIA. “Agradecemos à câmara municipal e a todos os voluntários”. Têm carro, algum dinheiro para recomeçar, mas o que construíram em Irpin já não existe. “Esperamos uma nova vida, depois de tudo o que perdemos”.

Pais e irmãos permanecem na terra mãe, expostos ao furor inimigo. “Os nossos familiares dizem-nos: que pelo menos uma família da nossa grande família possa estar segura”. E eles encaram a responsabilidade. “Percebemos que somos o futuro dos nossos familiares e temos de continuar, não podemos estar em depressão, temos de conseguir um novo trabalho, temos de construir, é a primeira coisa que temos de fazer. Somos jovens, podemos”.

Daniel é programador informático, Maryna fala inglês e mandarim e vê-se a trabalhar numa escola ou como tradutora. Saíram da Ucrânia no dia 22 de Fevereiro, por já preverem (e temerem) a repetição dos acontecimentos de 2014, quando viviam em Lugansk. Fugiram para a Roménia, onde ajudaram outros refugiados a atravessar a fronteira. E a sucessão de bombardeamentos trouxe-os até Portugal, um país historicamente neutro. E a Leiria, um ponto no mapa, aleatório, a possibilidade de refúgio.

“Se a guerra terminar, vamos voltar e reconstruir a nossa casa”, diz Maryna. “Queremos ser úteis em Portugal enquanto estamos cá. Depois queremos ser úteis para o nosso país”.

Distrito com mais de mil pedidos
 
O distrito de Leiria ocupa o quinto lugar nos pedidos de protecção temporária de refugiados da Ucrânia. Segundo revelou Gonçalo Lopes, presidente da Câmara de Leiria, até ao dia 20 de Março, o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras tinha registado 1.111 autorizações da região, das 15.614 que deram entrada a nível nacional até à data. Na última reunião de executivo, o autarca disse ainda que o concelho de Leiria é “a terceira capital de distrito, a seguir a Lisboa e Porto”, com 368 pedidos.
 
EC

 

Tópicos: LeiriaMarinha GrandeSão Pedro de MoelSOS Ucrânia
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