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As caixinhas da arte e do cinema

Catalogar, definir, são processos que nos permitem compreender as coisas, mas que ao mesmo tempo criam fronteiras, muros de pensamento, ideias feitas, preconceitos, conservadorismo.

Erica Faleiro Rodrigues, directora artística dos festivais utopia.co.uk e underscore.pt Erica Faleiro Rodrigues, directora artística dos festivais utopia.co.uk e underscore.pt
6 de Setembro de 2018
em Opinião
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Erica Faleiro Rodrigues, directora artística dos festivais utopia.co.uk e underscore.pt
Erica Faleiro Rodrigues, directora artística dos festivais utopia.co.uk e underscore.pt6 de Setembro de 2018

A maior parte do público passa pelas instalações de vídeo-arte de uma forma blasé, parando 5 segundos, 5 minutos. Cada um vê de cada obra o que quer.

Um artista que conseguiu subverter esta relação entre a galeria e o tempo, manipulando-o ao extremo, foi o britânico Douglas Gordon, em 1993, com a sua obra 24 Hour Psycho, que pega no filme Psico, de 1960, de Alfred Hitchcock, e o projecta à velocidade de 2 segundos por fotograma, em vez dos normais 24.

Como resultado, o filme dura exactamente 24 horas em vez dos 109 minutos originais. Cada movimento é uma eternidade. Na galeria, vejamos 5 minutos desta instalação, vejamos 1 hora, podemos seguir o nosso caminho, percebemos o conceito.

No início deste século, fiz a curadoria, na sala principal do British Film Institute, em Londres, do trabalho de um artista português intitulado Video Stills. Neste projecto, a câmara fica durante meia hora focada num espaço interno ou externo urbano em que o que observamos são as alterações mínimas da luz, ou de um personagem anónimo que rapidamente desaparece.

No final de cada evento, que era gratuito, fui surpreendida por queixas dos frequentadores mais regulares do espaço. O motivo? Tinham estado sentados na sala de cinema e no filme, diziam, não se passava nada.

Ao mesmo tempo que tentava explicar o objectivo do trabalho, confesso que, por dentro, aquele desconforto dos espectadores me causava um frémito de excitação, descobri o prazer em perturbar a audiência, a excitação de, como curadora, mostrar um trabalho que catapulta a audiência para fora da sua zona de conforto.

Nesse momento, percebi também como o espaço do cinema é diferente do espaço da galeria. No cinema, regra geral, pagamos um bilhete, sentamo-nos rodeados de pessoas e a maior parte do tempo, mesmo que não gostemos do filme, ficamos até ao fim. Ficamos, mesmo que seja para no final afirmarmos que nos roubaram 2 horas preciosas da nossa vida.

Se for numa galeria, não gostamos, vamos ver outra coisa, não pensamos mais nisso. Assim, os filmes são metidos em caixinhas, os que pertencem à art house e os que pertencem à film house; os que são feitos para a audiência que é livre no espaçotempo e os outros, os que são feitos para a audiência que gosta de ser prisioneira do  [LER_MAIS] espaço-tempo cinematográfico.

Vem uma vontade enorme de mostrar na galeria filmes que façam a audiência ficar sentada duas horas e de mostrar no cinema filmes que façam o espectador, se não levantar-se, pelo menos mudar de cadeira.

*directora artística dos festivais utopia.co.uk e underscore.pt

Tópicos: 24 hour psychoÉrica Faleiro Rodriguesinstalaçãoopiniãopsico
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