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Vuuuuum, vuuuuum

“Gostava da tua mãe, às vezes ainda penso nela. Bons tempos, esses. Mas depois fui para a França e pronto. Tudo mudou.” Calou-se.

Paulo Kellerman, escritor Paulo Kellerman, escritor
31 de Maio de 2018
em Opinião
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Paulo Kellerman, escritor
Paulo Kellerman, escritor31 de Maio de 2018

"Olhe, desculpe. Pode dar-me uma ajuda?” Avançava pelo corredor do supermercado a pensar sei lá em quê, com pressa, sempre com pressa; demorei alguns segundos a perceber que a conversa era comigo.

Uma senhora, que no primeiro instante me lembrou a minha avó, estendia-me um frasco. “É que já não vejo grande coisa. Pode dizer-me se este é o champô de França?” Peguei no frasco e dei uma olhadela.

“Estive na França muitos anos mas agora voltei e tenho saudades, gostava daquilo. É lá que está a minha gente, eu tive de regressar. Coisas da vida, todos temos as nossas chatices. Este champô era o que usava e assim dá para matar um pouco as saudades. Por causa do cheiro, sabe? Faz-me lembrar quando estava lá.”

Devolvi-lhe o frasco, confirmando que era francês. “Obrigada. Mas desculpe, estava aqui a olhar para si e a pensar. Você é o filho da Amélia, não é?” Olhámo-nos durante um segundo. “És pois. Na altura tinhas cabelo, mas és mesmo tu.”

E riu. “Lembro-me de ir a casa da tua mãe e estares por lá, sempre agarrado aos carrinhos de brincar. Olha que coisa, encontrar aqui o filho da Amélia. Ficavas no chão com os carritos, a andar com eles de um lado para o outro, fazias vuuuuum, vuuuuum. Estavas lá no teu mundo, feliz da vida. Sempre foste caladito.” Voltou a rir, depois ficou séria.

“Gostava da tua mãe, às vezes ainda penso nela. Bons tempos, esses. Mas depois fui para a França e pronto. Tudo mudou.” Calou-se.

As pessoas passavam à nossa beira; com pressa. “Cheguei a escrever-lhe cartas.” Sorriu. “Ficávamos lá em casa, naquele vosso terraço onde se ouvia a passarada, e íamos falando  [LER_MAIS] disto e daquilo. Ainda há pássaros por lá? Às vezes, penso que o mais difícil não é esquecer as memórias que doem, o pior é esquecer as memórias boas, que por serem boas nos prendem ao passado. Não queremos largá-las, e vamos ficando presos. Mas não ligues, isto são disparates de velha.”

 Tocou-me no braço, como se pedisse desculpa. “Gostava muito do vosso terraço. E das nossas conversas. Um dia, estava lá com a tua mãe e não se ouviam os pássaros porque o vento estava forte e eles tinham fugido; sabes o que disse a tua mãe? Perguntou assim: será que os pássaros acordam de manhã e planeiam os voos que darão ao longo do dia ou simplesmente acordam e voam para onde calha, ao sabor da vontade, da liberdade, do vento?”

Deu-me um novo toque no braço, sorriu. “Vai lá à tua vida, que vejo que estás com pressa. Cumprimentos à tua mãe. Pode ser que um dia destes a vá visitar.”

Correspondi ao sorriso, afastei-me. Não disse que sou filho da Céu, e não da Amélia. Não era necessário dizê-lo, ela sabia. Caminhei pelo corredor enquanto algumas das coisas que ouvira ainda me bailavam na cabeça e, logo depois, retomei a pressa habitual. É como se houvesse sempre um vento a empurrar-me nalguma direcção.

Apenas voltei a lembrar-me da senhora hoje. Passo pelo corredor do mesmo supermercado a pensar sei lá em quê, com pressa, sempre com pressa; e vejo-a. Tem o frasco de champô na mão e fala com alguém mais ou menos da minha idade.

Quando passo perto, ouço-a dizer:“Ficavas no chão com os carritos, a andar com eles de um lado para o outro, fazias vuuuuum, vuuuuum.” 

*Escritor

Tópicos: opiniãoPaulo Kellerman
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