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Rã King

Quando nos focamos excessivamente num objetivo, perdemos de vista o quadro global.

admin admin
8 de Fevereiro de 2018
em Opinião
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admin
admin8 de Fevereiro de 2018

Se Esopo ainda fosse vivo, talvez reescrevesse a sua fábula da rã e do touro… Era uma vez uma rã. A rã vivia feliz no seu charco, com a sua família e os seus amigos. Crescia quase sem dar por isso, de tão embrenhada que andava sempre em encontrar uma nova brincadeira que ainda não tivesse experimentado. Saltava de nenúfar em nenúfar, umas vezes com sucesso, outras dando grandes chapas!

Quando falhava, deslocava-se, apressada, para o ponto de partida, decidida a tentar novamente. Quando, finalmente, atingia o objetivo, logo aumentava a fasquia, procurando um alvo mais afastado ou mais pequeno, desafiando-se. Na maior parte das vezes, explorava as suas capacidades com as companheiras que, como ela, se desafiavam mutuamente num clima de enorme alegria, todas querendo o seu sucesso e o das parceiras de brincadeira.

Um dia, uma ENORME rã apareceu de surpresa. Apesar de toda a sua imponência, mostrou-se afável e próxima dos habitantes do charco. Quase sem darem por isso, começaram a olhar para ela como a sua líder, a rainha. Pouco a pouco, começaram a sentir o desejo de ser como ela. Pediram-lhe insistentemente que lhes dissesse o que deveriam fazer para tal.

A rã king size, finalmente, acedeu, mas disse-lhes que não seria fácil. Para começar, teriam de parar com aquelas brincadeiras sem sentido, com aquelas perdas de tempo. Depois, teriam de comer muito mais do que comiam mas esquecendo besouros e lagartas, trincando apenas moscas e baratas.

Um grande quadro afixado num nenúfar gigante mostraria quem eram as melhores. Todos os anos, como prémio, as três primeiras sairiam do charco, passando para um enorme lago a uns quilómetros dali. Em pouco tempo, perceberam que não era aquela a vida que queriam, correram com a rã king e voltaram a ser felizes, aproveitando tudo o que a vida lhes dava.

Quando nos focamos excessivamente num objetivo, perdemos de vista o quadro global. Parece inexorável a marcha do comboio das alterações pedagógicas de fundo. Sente-se um amplo consenso quanto ao perfil que o aluno deverá apresentar no final da escolaridade obrigatória, assente em dez diversificadas áreas de competências.

 [LER_MAIS] Ruma-se no sentido de cada escola ser cada vez mais autónoma e dotada de maior flexibilidade para o atingir, sendo muito relevante o recurso a um conjunto variado de instrumentos avaliativos que afiram a qualidade desse trajeto.

Perante este quadro, querer inferir-se a qualidade do trabalho de uma escola pelo resultado numa prova única, de um só tipo, é não só intelectualmente desonesto como contraproducente face ao que, legitimamente, se deve esperar, no século XXI, que seja a atuação dum estabelecimento educativo: uma peça no puzzle da construção de um cidadão autónomo, reflexivo, criativo, sensível, crítico, curioso, participativo, exigente e informado.

Enquanto se olhar para o ensino obrigatório como algo que só tem interesse como antecâmara para o ensino superior, continuaremos a dar aos rankings a importância que não deveriam nem merecem ter, ajudando a alimentar a máquina das explicações a que só alguns (quais? De que escolas?) terão acesso.

Se as instituições de ensino superior pouco aproveitam dos conhecimentos específicos que os alunos trazem dos níveis anteriores e se os empregadores apostam muito mais em competências transversais do que em conhecimentos técnicos e especializados, a quem aproveita esta azáfama insana em que todos andamos envolvidos?

*Professor na ESECS
*Texto escrito com a nova ortografia

Tópicos: escolasopiniãorankingrui matos
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