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Home Economia

Preço do gás natural sobe para o dobro e asfixia empresas de cerâmica

Os empresários da indústria cerâmica da região mostram-se muito preocupados com os aumentos do preço do gás natural, que terão um impacto "brutal". Perda de competitividade é um risco

Raquel de Sousa Silva Raquel de Sousa Silva
23 de Outubro de 2021
em Economia
Preço do gás natural sobe para o dobro e asfixia empresas de cerâmica
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Paga actualmente uma factura de gás natural na ordem dos 100 mil euros, corre o risco de ver esse valor subir para 300 mil.

A Vasicol, empresa de Porto de Mós que produz artigos utilitários, de decoração e para jardim, é uma das muitas empresas cerâmicas que temem sofrer aumentos “significativos” deste combustível.

“Agora pagamos o gás natural a 14 euros o kw/hora. Pedi uma proposta e o valor é de 55 euros o kh/hora”, conta ao JORNAL DE LEIRIA Márcio Cardoso, adiantando que o contrato com o actual fornecedor termina em Dezembro e manifestando esperança de conseguir negociar melhores preços.

Caso venha a ter de pagar o gás àquele valor, será bastante preocupante, frisa o empresário. “Estamos a falar de quadriplicar os preços”. Para as empresas de cerâmica, muito dependentes do gás natural para o funcionamento dos fornos, “é um rombo muito grande”, que causa asfixia.

Se os aumentos previstos se concretizarem, a Vasicol terá de comunicar aos clientes aumentos de 20 a 30% nos preços das encomendas. O que é um risco. “Se subirmos os preços, a médio/longo prazo os clientes voltarão para a China”.

A perda de competitividade face aos concorrentes de outros países é um receio partilhado por outros empresários.

“Apoiar as exportações deste País é mesmo isto! Aumentar o gás natural de tal forma que se torne insustentável exportar um dia destes”, ironizou Carla Moreira numa publicação no Facebook.

No caso da Arfai, de Alcobaça, o factor energético (uma das componentes do preço do gás natural) aumentou de 0,16 para 0,32. “O dobro, portanto”, destaca a empresária, que dizia ainda que “o problema é que as companhias fornecedoras não aguentam os aumentos sucessivos e, unilateralmente, alteraram os preços antes do contrato terminar. E podem fazê-lo por contrato”.

[LER_MAIS] A empresa paga uma factura entre 15 e 20 mil euros mensais e Carla Moreira admite que o valor não duplique, como aconteceu com o factor energético. Mas sabe que o aumento que vier “terá um impacto brutal e assustador”.

“Temos muita procura agora, é certo, muitas empresas saíram da China e estão a comprar na Europa e em Portugal. Mas se nos tornamos demasiado caros arriscamos perder clientes.

A perda de competitividade é um risco”, sublinha ao JORNAL DE LEIRIA a administradora da Arfai, que exporta 98% da sua produção.

“Devia haver algum controlo do Governo no que respeita às energias”, defende Carla Moreira, lembrando que a electricidade também tem subido muito.

“Temos uma estação fotovoltaica com 240 painéis que no primeiro ano se pagava a si própria. Agora nem se sente vantagem, foi absorvida pelo aumento da electricidade”.

Marcelo Sousa, administador da Matcerâmica, no concelho da Batalha, lembra que a energia é um dos principais custos de produção e o gás o maior custo energético.

Os impactos da escalada de preços “são inevitáveis e vão directos à nossa margem, ou seja, fragilizam sempre a nossa competitividade”.

“O desfasamento temporal que existe entre estes aumentos e os preços acordados com os nossos clientes não permite reflectir a totalidade destes aumentos”, explica.

Para este gestor, “o governo devia intervir ao nível da legislação sobre as taxas e tarifas de forma a minimizar estes aumentos”.

“Também devia incentivar e compensar ao nível fiscal, nomeadamente todas as empresas que maximizam as melhores práticas de eficiência energética”.

Gás: governo a trabalhar para reduzir preços
Apicer defende intervenção a nível europeu

José Sequeira, presidente da Apicer, associação da indústria cerâmica, admite que a preocupação com os aumentos do preço do gás natural “é muito grande”. É que há subidas de 50 e de 100%, o que tem “reflexo imediato e muito forte na actividade das empresas”. “Parece-nos que a única solução é que a questão seja dirimida na Europa e que a Comissão Europeia tenha uma posição normalizadora da situação. O que se passa é grave de mais para ser resolvido/tratado apenas pelo nosso país”, diz ao JORNAL DE LEIRIA. O dirigente lembra que as empresas estão a lidar também com as questões da descarbonização, objectivo que implica “investimentos muito significativos”. Lamentando que haja “alguns exageros nas metas definidas”, o presidente da Apicer garante que o sector compreende as necessidades climáticas subjacentes à descarbonização, mas diz que é preciso compatibilizá-las com as necessidades da indústria. Esta segunda-feira, o ministro da Economia, Siza Vieira, garantiu que o Governo está a trabalhar para reduzir os preços do gás para as empresas industriais, embora seja uma tarefa “mais difícil” do que limitar os de acesso às redes eléctricas. 

Tópicos: alcobçaapiceraumentosBatalhacerâmicaeconomiagás naturalPorto de mós
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