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Asas

Ele vivia numa aldeia, ela noutra; pelo meio, muitos quilómetros de distância. Isso não o preocupava, sempre ouvira dizer que o amor é cego (mentira) e que dá asas (talvez), o que é bom para quem tem de andar a pé.

Paulo Kellerman, escritor Paulo Kellerman, escritor
8 de Dezembro de 2017
em Opinião
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Paulo Kellerman, escritor
Paulo Kellerman, escritor8 de Dezembro de 2017

Houve um rapaz que conheceu uma rapariga. Ele apaixonou-se, ela nem por isso; mas ele só percebeu mais tarde: quando lhe ofereceu uma flor. É que não havia transportes, tudo isto se passou no tempo em que se andava a pé.

Ele vivia numa aldeia, ela noutra; pelo meio, muitos quilómetros de distância. Isso não o preocupava, sempre ouvira dizer que o amor é cego (mentira) e que dá asas (talvez), o que é bom para quem tem de andar a pé.

Num domingo levantou-se cedo e foi ao jardim da mãe, andou às voltas até decidir qual era a flor mais bonita, apanhou-a cuidadosamente e pôs-se a caminho. Ia pensando no que poderia acontecer quando oferecesse a sua flor (sonhava acordado, e isso é que dá asas: o sonho); por vezes, interrogava-se se teria escolhido a flor certa; se haveria uma flor certa.

Ia tão distraído com os seus pensamentos que nem reparou quando apareceu a primeira borboleta, nem a segunda nem a terceira; só percebeu que algo anormal estava a acontecer quando já voavam mais de vinte borboletas à sua volta.

 [LER_MAIS]Caminhava pelos campos desertos e silenciosos, agarrando a sua flor com delicadeza; e atrás de si, atrás do perfume da sua flor, seguia um rasto de borboletas. Achou estranho porque nunca vira borboletas no jardim da mãe mas decidiu que não haveria problema em chegar ao seu destino tão bem acompanhado.

Quando entrou na aldeia, segurando orgulhosamente a flor, era seguido por mais de mil borboletas; formavam uma espécie de arco-íris vivo e fluido, mutante; era uma coisa bonita de se ver. Havia no ar um leve murmúrio provocado pelo bater de todas aquelas asas; como se fosse uma oração. As pessoas da aldeia vieram espreitar tão estranha procissão, escutar tão rara prece; algumas aplaudiram, outras benzeram-se; todas em silêncio, talvez fascinadas, talvez assustadas.

Por fim, o rapaz chegou à porta da casa da rapariga. Ela saiu, olhou as borboletas, abanou a cabeça. Ele aproximou-se e estendeu a mão com a flor, como se fosse a mais preciosa das dádivas. As borboletas voavam em círculos, os vizinhos observavam.

Ele aguardou pelo sorriso com que sonhara, a mão estendida, a flor à espera. Mas ela não a segurou; disse, num tom rabugento: não me trouxeste nada para comer?

Nesse momento, as borboletas entraram em alvoroço e voaram freneticamente, formando uma espécie de tornado; desapareceram em poucos segundos. Ficou o silêncio, e nada mais. Ela regressou a casa, ele percebeu que o amor pode dar asas mas também é muito estúpido.

Abandonou a aldeia apressadamente, indiferente aos ocasionais risos da audiência. Como não tinha nada melhor para fazer, foi contando os passos que dava. Quando chegou a oitocentos e dezoito sentiu vontade de se deitar na erva fofa e dormir, porque contar passos ainda era mais eficaz que contar ovelhas; nunca vira uma ovelha mas sabia que existiam; tal como o amor: nunca o vira mas sempre contara com ele, sabia que certamente existiria.

Chegou de madrugada e a primeira coisa que fez foi devolver a flor ao jardim da mãe, depositando-a sobre a relva humedecida pelo orvalho; talvez ressuscitasse. Depois foi para o seu quarto e adormeceu. Sonhou com borboletas.

*Escritor

Tópicos: opiniãopaulokellerman
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