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Home Sociedade

Comissão técnica admite que limpeza das faixas de gestão faria pouca diferença no incêndio de Pedrógão Grande

Ventos e fenómenos anormais terão tornado o incêndio incontrolável

Elisabete Cruz Elisabete Cruz
27 de Setembro de 2021
em Sociedade
Comissão técnica admite que limpeza das faixas de gestão faria pouca diferença no incêndio de Pedrógão Grande
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Joaquim Sande Silva, um dos peritos da Comissão Técnica Independente, que analisou os incêndios de 17 de Junho de 2017, afirmou hoje no Tribunal de Leiria que o cumprimento da limpeza das faixas de combustíveis faria pouca diferença no controlo do fogo de Pedrógão Grande.

O perito ouvido como testemunha disse que a limpeza de dez metros nas faixas de gestão de combustível, “em condições normais, e este fogo não foi normal, foi um fogo de superfície, pode ter algum efeito para travar um eventual incêndio”.

“Neste fogo, provavelmente, não teria feito diferença. O fenómeno extraordinário que ocorreu foi de grande amplitude, não teve a ver com o gerir aqui ou a acolá”, afirmou, ao referir que pela análise realizada pelo grupo da comissão técnica na estrada nacional 236-1 terá havido “limpeza parcial”.

Confrontado com a pergunta se haveria influência para evitar as mortes, Joaquim Sande Silva, doutorado em Engenharia Florestal, sublinhou que “não há forma nenhuma, mesmo com o avanço das ciências, de tentar simular um cenário destes”.

O professor do ensino superior apontou ainda que a diferença entre o incêndio de Pedrógão Grande e o de Góis, que se desenrolaram quase ao mesmo tempo, foram “os fenómenos locais associados a mecanismos de convenções” e a uma “grande velocidade do vento”, sobretudo a partir das 20 horas.

“No caso de Góis não existe descrição de um fenómeno com estas características. É esta a diferença entre os dois incêndios”, constatou, acrescentando ainda que depois das 16 horas o incêndio seria “muito difícil de controlar fosse com que meios fosse”.

Joaquim Sande Silva referiu ainda que o “sistema, como um todo, não esta preparado” e continua a acreditar que “não está preparado para eventos desta natureza”.

Segundo o perito, o local da ignição inicial do incêndio, em Escalos Fundeiros, foi identificado pela Polícia Judiciária. “Terá havido alguma interação de um fenómeno externo [relâmpago] e um carvalho, que se encontrava por baixo da linha de média tensão e terá havido uma descarga eléctrica nesse local. Verificámos que havia três pontos onde o cabo estava escamado e que terá tocado no carvalho que estava por baixo”, explicou.

“Aquele [Escalos Fundeiros] era um local atípico para aquela evolução do fogo, devido à humidade, já que a vegetação baixa, as folhosas predominavam junto à linha de água. Essas condições não são propícias, por alguma razão o incêndio propagou-se ao longo da ribeira”, disse.

O julgamento para determinar eventuais responsabilidades nos incêndios de Pedrógão Grande, nos quais o Ministério Público contabilizou 63 mortos e 44 feridos quiseram procedimento criminal, foi retomado hoje após as férias judiciais.

Em causa estão crimes de homicídio por negligência e ofensa à integridade física por negligência, alguns dos quais graves.

Os arguidos são o comandante dos Bombeiros Voluntários de Pedrógão Grande, Augusto Arnaut, responsável pelas operações de socorro, dois funcionários da antiga EDP Distribuição (actual E-REDES) e três da Ascendi (que tem a subconcessão rodoviária Pinhal Interior), e o ex-presidente da Câmara de Castanheira de Pera Fernando Lopes.

Os presidentes das Câmaras de Figueiró dos Vinhos e Pedrógão Grande, Jorge Abreu e Valdemar Alves, respetivamente, também foram acusados.

O antigo vice-presidente da Câmara de Pedrógão Grande José Graça e a então responsável pelo Gabinete Florestal deste município, Margarida Gonçalves, estão igualmente entre os arguidos.

Aos funcionários das empresas, autarcas e ex-autarcas, assim como à responsável pelo Gabinete Técnico Florestal, são atribuídas responsabilidades pela omissão dos “procedimentos elementares necessários à criação/manutenção da faixa de gestão de combustível”, quer na linha de média tensão Lousã-Pedrógão, onde ocorreram duas descargas elétricas que desencadearam os incêndios, quer em estradas, de acordo com o Ministério Público.

 

Tópicos: advogadosinvestigação científicajulgamentojustiçapolíciasociedadetribunal
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