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Ainda a Mata dos Marrazes

"Mesmo subaproveitada, aquela enorme massa de vegetação já desempenha, incógnita e gratuitamente, funções vitais que contribuem para o equilíbrio da paisagem (...) para a qualidade de vida humana num raio de influência que nem sequer temos consciência".

Paula Simões Paula Simões
19 de Novembro de 2015
em Opinião
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Paula Simões
Paula Simões19 de Novembro de 2015

Porque contém um conjunto de pré-existências (naturais e culturais) que a revestem de um potencial extraordinário – essencial à qualidade de vida da população e fundamental para o equilíbrio ecológico da periferia urbana – a Mata dos Marazes é um espaço ‘paisagem’ cuja existência, per si, é um privilégio para a cidade de Leiria. Mesmo subaproveitada, aquela enorme massa de vegetação já desempenha, incógnita e gratuitamente, funções vitais que contribuem para o equilíbrio da paisagem, do ambiente e para a qualidade de vida humana num raio de influência que nem sequer temos consciência. Para ser um parque é necessário actualizá-la, reinventá-la e geri-la como um todo, canalizando todas as energias e potenciais. Não sei se lhe chame parque periférico, suburbano, ambiental, ou de uso múltiplo. Possa ela participar na estrutura ecológica da cidade e ver valorizado o seu potencial recreativo, que facilmente se evidenciará uma tipologia! É que a Mata dos Marrazes tem todos os ‘ingredientes’ para ser um espaço multifuncional e congregador de gerações, um espaço de alimento para o corpo e para a mente e agregador dos valores culturais, patrimoniais, históricos e ecológicos que transporta na sua memória. E essa actualização não carece de grandes artifícios. Precisa só que o valor hídrico, a frescura da ribeira, a sombra das árvores e a luz das clareiras, sejam postos em evidência. Precisa que se deixe a sazonalidade espreitar e de ser humanizada, apelando aos sentidos numa articulação forte com os núcleos urbanos contíguos.

Na verdade, até podemos reconhecer acções que demonstram a vontade de a valorizar. Mas é premente definir uma estratégia de intervenção, qualificação e valorização que a reconheça espacial, funcional e simbolicamente. Infelizmente, essas acções pontuais, impostas Paula Simões Ainda a Mata dos Marrazes avulso, tendem a contribuir para a descaracterização, aumentam a fragilidade e facilmente conduzem a situações de irreversibilidade num tempo à escala humana. Garantindo sempre a sua valorização ecológica cultural e paisagística é primordial definir funções, equipamentos e infraestruturas que permitam o recreio de forma ordenada e segura; que façam dela mediadora da relação cidadecampo e a integrem com outros equipamentos de uso público, espaços museológicos e culturais numa continuidade à escala da cidade e da região. Será benéfico ponderar a sua participação na economia local, nomeadamente pela produção de bens de primeira necessidade ou apostando em práticas de natureza silvícola. Urge também identificar os elementos negativos e ter a coragem de os anular. Feita essa reflexão, e através de um bom projecto, será fácil afetar forma e materialidades à Mata – actualizando-a na contemporaneidade. E porque ela é um sistema dinâmico, aberto e vivo, carece complementar esse desenho com um bom plano de gestão, manutenção e conservação.

Configurar a Mata dos Marrazes como um espaço pulmão da periferia da cidade – sustentável e com dinâmicas biológicas e ecológicas equilibradas – fazer dela um espaço de cultura, social, de recreio e pedagógico – de reencontro com a natureza e que proporcione às gerações vindouras a possibilidade de ver, a quatro dimensões (o tempo é essencial num sistema vivo) a vegetação autóctone, a manta morta, os musgos, os líquenes, a fauna, e ser palco para lhes explicar a importância de todo esse complexo sistema vivo (regularização hídrica, protecção do solo e sustentabilidade) – é um dever quando tanto se fala da pegada ecológica, de educação e participação ambiental.

Tópicos: opiniãopaulasimões
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