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Home Desporto

Das braçadas “à cão” no lago Niassa à maior competição desportiva do planeta

Nos Jogos Olímpicos, Filipe Gomes quer bater mais um recorde nacional do Malawi

Miguel Sampaio Miguel Sampaio
17 de Julho de 2021
em Desporto
Das braçadas “à cão” no lago Niassa à maior competição desportiva do planeta
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O orgulho em representar as origens é “enorme” e até sente “borboletas no estômago” só de pensar no que está para chegar. Filipe Gomes está à beira de nadar nos Jogos Olímpicos com o peso adicional de ser o único representante de um país naquela competição.

Será com as cores do Malawi, terra onde nasceu, lugar que muito ama e que quer honrar até ao limite das suas forças.

A história começa quando os avós maternos de Filipe Gomes se mudaram para África, ainda jovens. O avô abriu uma oficina de bate-chapas, integrou-se na comunidade e construiu família. A terceira geração já nasceu naquele ambiente.

O rapaz, de resto, sempre adorou os petiscos da avó, um twist entre comida portuguesa com ingredientes africanos. O que nunca podia faltar era o nsima, um prato à base de farinha de milho, na forma de um puré branco.

Constitui a base da alimentação quotidiana e é, desde 2017, Património Cultural Imaterial da Humanidade. “A minha avó faz muito com caril de frango e aquele molho em cima do nsima fica delicioso.”

Foi no lago Malawi, ou Niassa, um dos maiores do mundo, que Filipe começou a nadar. “Ia sempre com colete, mas houve um dia em que me atiraram para dentro de água e fui a nadar à cão até ao meu pai.” Jamais imaginaria que seria o prelúdio para uma carreira internacional, mas foi.

Tinha 10 anos quando Filipe se mudou, com os pais, para Leiria. Teve de se adaptar à língua e ainda hoje, aos 23 anos, tem um ligeiríssimo accent na língua oficial daquela antiga colónia britânica que lhe adoçica as palavras.

“Quando nasci só falava português e quando fui para a escola não sabia falar inglês. Tive de aprender, desligar-me do português e depois esqueci-me. Mas a minha primeira língua ainda é o inglês e se tiver de fazer uma conta de matemática ainda o faço em inglês.”

Antes, aos 7 anos, tinha começado a nadar nas piscinas locais, pelo que a adaptação a Portugal também foi muito feita dentro de água. “Destacou-se muito rapidamente. Era pequenino, mas muito ágil. O trabalho de base de formação dele foi muito bem feito”, assegura João Paulo Fróis, o treinador desde então.

[LER_MAIS]Até que uma vez, em 2015, estava a falar sobre o facto de ter dupla nacionalidade no ginásio quando Nuno Santos, colega no Bairro dos Anjos, atirou: “e se começasses a competir pelo Malawi?” Entrou em contacto com a federação malawiana, que correspondeu ao interesse.

Hoje, Filipe Gomes tem a participação em três Mundiais no currículo e seguem-se os Jogos Olímpicos. “É um sonho. Pensava que seria impossível atingir aquelas marcas. Surgiu a oportunidade e fico emocionado só de pensar que lá vou estar.”

Os primeiros lugares podem ser uma miragem, mas não é isso que o faz abrandar. Filipe Gomes parte para Tóquio com o objectivo de estabelecer um novo recorde nacional na prova que vai nadar, os 50 metros livres, que na verdade já lhe pertence, como outros 32. Exceptuando a técnica de costas, é tudo dele.

“Mesmo quando não me apetece treinar, sinto-me bem por ter feito o que não queria fazer”, sublinha. O treinador concorda. “Trabalha muito, de igual para igual com os melhores atletas internacionais. É extremamente robusto, não se nega e vai ao limite. Quer registar um recorde e ficar marcado que foi nos Jogos Olímpicos. Todos os dias alimenta isso no treino.”

Tópicos: Bairro dos AnjosFilipe GomesJoão Paulo Fróisjogos olímpicosMalawinataçãoTóquio
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