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Home Viver

António Gregório, escritor: “O mundo é mais complexo do que um jogo de pingue-pongue mal jogado”

"Adoro... olhar para o tecto. Creio que vem da infância"

15 de Julho de 2021
em Viver
António Gregório, escritor: “O mundo é mais complexo do que um jogo de pingue-pongue mal jogado”
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Já não há paciência… para o bordão ‘quem não deve não teme’ se o assunto é o cerco vigilante do poder oficial aos cidadãos. Eu devo e temo; a colagem da defesa da privacidade à ideia de que anda ali um crimezinho que se quer ocultar é obscena e perniciosa. E poupem-me à réplica ‘Mas escarrapachas a tua vida toda nas redes sociais!’. De resto, no dia em que andarmos todos de chip enfiado no ânus (pode dizer-se cu?) o crime não acabará – terá apenas sido centralizado.

Detesto… o afunilamento das argumentações em sim ou sopas, de uma maneira geral, e em politicamente correcto vs politicamente incorrecto em particular. O mundo é mais complexo do que um jogo de pingue-pongue mal jogado numa mesa coxa de arrecadação.

A ideia… de amanhã acordarmos com uma pérola no cu (estou a corromper alegremente o título de um livro de Jorge Sousa Braga) ao invés de um chip é mais feliz.

Questiono-me… se será saudável o excesso de sugestão da edilidade sobre como cada um deve fruir do espaço público e, de caminho, a elevação da saúde, bem-estar, gregarismo e felicidade-padrão a desígnios oficiais.

Adoro… olhar para o tecto. Creio que vem da infância: li, nesses anos de todas as influências, uma tira do Pato Donald onde ele, deitado no divã do psicanalista e instigado a dizer o que lhe viesse à cabeça, diz, após uma hora de silêncio, ‘Tem uma rachadura lá no teto’.

Lembro-me tantas vezes… da dona Fernanda no pátio da minha escola primária fazendo uma fogueira mansa com as folhas secas do plátano. Tão o oposto – em fragrância, elegância, paz & amor (Ringo Starr era amiúde avistado na mancha de fumo pedindo duas imperiais de cada lado) – da boçalidade dos sopradores motorizados.

Desejo secretamente… que chovam gafanhotos em, digamos, 73% dos dias de ‘eventos’. Praga contra praga: talvez no rescaldo algum bom senso apareça. Tenho saudades… das mesas muito juntinhas e superpovoadas d’A Brasileira, em Braga. Ah, e o que eu me queixava disso, nos anos felizes dos antigamentes! Quem me visse, muito polido, dizendo ‘obrigado’ ao garçom que me trazia ao café, não imaginava o tumulto que me ia dentro, as ganas bíblicas de varrer a sala derrubando mesa sim mesa não. (Advertência: moro agora a Norte; não se me julgue o estroina que faz trezentos quilómetros para um café pós-prandial.)

O medo que tive… de as batatas fritas afinal terem de ser pedidas à parte. Não as tínhamos pedido: as francesinhas d’oiro já sobre a mesa, as imperiais idem, e o garçom a empatar a vinda das batatas. Hoje temos a certeza de que fez de propósito.

Sinto vergonha alheia… do inglês de DJ feito segunda língua oficial um pouco por toda a cidade. Li algures, num ensaio de J. L. Borges, creio (não tenho aqui maneira de confirmar), que o inglês não é a língua mais falada do mundo, mas a língua mais mal falada do mundo.

O futuro… não augura nada de bom, embora eu esteja, a cada dia, melhor.

Se eu encontrar… o H., peço-lhe os cem escudos que me pediu emprestados à entrada de uma matiné da Riomar. A adolescência começava a fugir-nos das mãos, as nossas ruas de sempre começavam a deixar de ser as nossas ruas de sempre e não voltámos a encontrar-nos. Sei pelo facebook que se fez pasteleiro na localidade de E.

Prometo… que um dia ganho coragem e mando uma mensagem de facebook ao H. a perguntar ‘Então e os meus cem escudos?’

Tenho orgulho… em ser capaz de me esquivar do anzol deste item – que está mesmo a pedir um trocadilho com uma cantiga muito popular da Rua Sésamo.

 
Tópicos: antónio gregóriocúculturaopiniãoPalavra de Honrapato donaldpérolaspingue-ponguequestionárioViver
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