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Contudo, ambos sabiam que quando partilhava os seus voos e os seus sentires, o pássaro transportava o amigo consigo.

Paulo Kellerman, escritor Paulo Kellerman, escritor
26 de Janeiro de 2017
em Opinião
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Paulo Kellerman, escritor
Paulo Kellerman, escritor26 de Janeiro de 2017

Basicamente, era um caracol preguiçoso. Gostava de estar sossegado no seu canto da floresta, indiferente às pressas do mundo. Havia um pássaro seu amigo que lhe dizia: «Oh pá, tu és o único caracol que tem duas conchas. Essa em que vives e onde te proteges da chuva. E outra, que não se vê mas que é a mais rija: aquela onde te escondes do mundo.»

O caracol encolhia os ombros (faz de conta, porque os caracóis não têm ombros), o pássaro encolhia os ombros (faz de conta, porque os pássaros não têm ombros) e ficavam os dois a olhar para as árvores. Depois, o pássaro cansava-se do silêncio e falava dos seus voos.

Contava como era bom furar as nuvens com o bico e sentir a sua brancura húmida, como era inebriante sobrevoar o mar e sentir os salpicos das ondas nas penas, como gostava de voar na direcção do pôr-do-sol e sentir que um dia chegaria até junto dele, como sentia serenidade quando pousava no cimo do farol e contemplava aquela linha mágica onde o azul do céu se mistura com o azul do mar. E suspirava.

Para afastar a fantasia, o caracol dizia uma qualquer coisa pragmática e anti-sonho, como por exemplo: «És palerma. Então não sabes que se conseguisses chegar junto ao sol, te queimavas todo? Pode parecer mais fraquinho quando está a desaparecer mas olha que mesmo assim está quente. Uns cinquenta e nove graus. Pelo menos.»

A fantasia afastava-se. E antes de regressar aos seus esvoaçamentos, o pássaro dizia: «Gostava de te levar comigo, um dia. Mas o peso das tuas conchas é demasiado para mim.» Contudo, ambos sabiam que quando partilhava os seus voos e os seus sentires, o pássaro transportava o amigo consigo.

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Tópicos: paulokellerman
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